Entrevista a Norman Lowell

Natural da ilha de Malta, a sagrada ilha de Melita, Norman Lowell considera-se um europeu no completo sentido da palavra. O autor é um banqueiro qualificado, um perito em artes marciais, fundador do Ch’uan Shu em Malta. Norman Lowell é um artista dedicado ao seu próprio estilo abstracto; Pintura de Acção Dionisica .

Norman Lowell concorreu às eleições europeias como cabeça de lista do movimento político/cultural que fundou e do qual é presidente: Imperium Europa, fundado em 2000.

Algumas pessoas afirmam que, no fundo, a sociedade maltesa é racista. Concorda com esta afirmação?

Infelizmente, sim, a sociedade maltesa é racista – e isto não devia ser assim. Está a ver, nós na Imperium Europa somos racialistas.

Você é racista?

Deixe-me esclarecer isto muito bem: nós não somos racistas, nós somos racialistas.

Há uma diferença enorme entre os dois. O primeiro implica o ódio para com as outras raças e a crença de que a própria raça é superior a todas as outras.

Por outro lado, os racialistas compreendem a diferença entre as várias raças. Portanto, um racialista deseja preservar essa diferença, o seu património genético, a sua consciência étnica. Um racialista procura proteger a sua raça; é a diferença genética que, acreditamos nós, determina todas as outras diferenças.

Acredita realmente que as pessoas de Malta são racistas, principalmente considerando o modo como os estrangeiros são aceites na sociedade maltesa?

Se continuarmos deste modo, daqui a alguns anos Malta irá tornar-se no Haiti do Mediterrâneo e nós do Imperium Europa iremos opor-nos a isso com todos os meios disponíveis. Esta traição da nossa bem amada ilha pelos políticos e pela Igreja irá acabar rapidamente logo que eu seja eleito para Bruxelas.

O racismo baseia-se só na cor da pele ou a cultura ocupa também um papel importante?

O racialismo é todo baseado na genética. Todos nós queremos um cavalo árabe de raça pura, um cão ou um gato com pedigree e, contudo, quando se trata da mais criativa raça, da raça europeia, da raça que agraciou este planeta e conquistou a Lua – verificamos que a comunicação social e a Igreja promovem a sua destruição através da miscigenação (reprodução inter-racial). Isto não é nada menos do que suicídio racial.

Acha que as autoridades, incluindo a polícia, os guardas prisionais e judiciais, demonstram algum elemento racista no modo como tratam os presos que não são malteses ou que têm a pele escura?

Não tenho conhecimento dos factos. Contudo, a polícia e o exército têm sofrido uma violência extrema por parte dos refugiados ilegais. Os nossos rapazes têm sido atacados com ossos de pernas de galinha nos olhos. Têm tido comida a escaldar atirada às suas caras. Polícias chegaram a ser feridos a tiro em Gzira. Os nossos homens de uniforme têm de ser comedidos na sua paciência e profissionalismo. Já aguentaram o suficiente. Precisamos de os apoiar, e não vilificá-los por se defenderem.

Porque acha que os estrangeiros de pele escura não devem ser aceites na ilha de Malta?

Estamos numa, sobrepovoada, ilha pequena. O controle sobre a imigração será uma prioridade na nova Europa que nós no Imperium Europa temos em mente.

No vosso manifesto eleitoral, promete acabar com a imigração ilegal. Pede que sejamos duros porque é uma luta pela nossa própria sobrevivência. Não acha que este é um ideal ou um comentário racista?

De modo nenhum! Devemos ficar indefesos perante esta invasão flagrante? Devemos atirar ao chão a toalha da resignação? Devemos inclinar as nossas cabeças e deixar que nos cortem a garganta? Devemos compactuar com um futuro que será um pesadelo para as nossas crianças? Devemos tornar-nos outra Birmingham, Bradford ou Brixton? O Comandante da Polícia Metropolitana de Londres divulgou um comunicado a semana passada afirmando que “as áreas impenetráveis estão a crescer por toda a Bretanha”. Áreas impenetráveis significa que são áreas onde os brancos não podem ir! Os britânicos, um povo outrora nobre e orgulhoso, com um império em redor do globo, tornaram-se agora estrangeiros na sua própria terra.

Nós no Imperium Europa somos a única voz de Malta. Somos a única alternativa real ao sistema decrépito que vendeu a nossa ilha e atirou o seu povo pelo ralo abaixo. Nós do Imperium Europa, e a minha pessoa em particular sendo o seu líder, temos por intento ser a voz do povo de Malta no futuro, inevitável, imparável: Imperium Europa.

Entrevista a Ernst Zündel

É na linha da frente da guerra em nome do nosso povo [europeu] que encontraremos Ernst Zündel, germano-canadiano de Toronto, defensor da liberdade de expressão, revisionista, escritor e editor. Por pouco que Zündel não se tornava mártir pelas suas ideias, quando, recentemente, foi vítima de um fogo posto que danificou severamente a sua casa e que certamente o teria morto caso ele ali se encontrasse, como tinha por usual, e quando, algum tempo depois, vítima de uma tentativa bombista, desta feita ao receber na sua residência uma encomenda armadilhada e inteligentemente disfarçada de livro, e que apenas foi entregue à polícia devido à suspeição relativa ao peso estranhamente excessivo da encomenda.

Os média controlados pelo sistema, tão prontos e vigilantes no que diz respeito à protecção dos direitos das minorias e que choram baba e ranho em enorme coro sempre que um dos seus “animais de estimação” é arranhado ou quando os seus sentimentos são magoados, praticamente ignoraram este e outros horríveis ataques contra o Sr. Zündel.

Bem-vindo ao American Dissident Voices . É uma honra ter como convidado um bravo campeão da liberdade de expressão como o senhor. Há poucas pessoas no mundo que estejam dispostas, como você, a enfrentar todas as lutas, desafios e dificuldades em nome daquilo que acreditam ser a verdade. Nas últimas semanas foi vítima de fogo posto e de um atentado bombista. Há quem o “odeie apaixonadamente”, a si a àquilo que tem vindo a fazer.

Bem, a campanha de ódio contra a minha pessoa dura há já muito mais tempo do que apenas algumas semanas. Nunca atingiu a forma violenta até ter ocorrido um atentado bombista em 1984, mas depois as coisas acalmaram porque os meus opositores, geralmente pertencentes ao lóbi de promoção do “holocausto”, conseguiram arrastar-me para o tribunal canadiano, mantendo-me ali, amarrado em litigação, durante nove anos. Durante o tempo que eu estive em tribunal a violência era proveniente de apoiantes da JDL ( Jewish Defense League ) que me empurravam e me deitavam ao chão, e que tentavam atacar a minha equipa legal enquanto se dirigia para a porta do tribunal, e batiam em algumas das minhas testemunhas a caminho do tribunal, e coisas assim. Mas geralmente tínhamos uma boa protecção policial, e sempre que eu considerava que a protecção da polícia não era suficientemente eficaz ou adequada, eu organizava a minha própria defesa.

Portanto, tem havido uma campanha contínua de violência contra si ao longo de mais de uma década.

Oh, sim. Para mim isto é apenas uma escalada. A razão pela qual tenho sobrevivido todo este tempo é aquela que os meus amigos, camaradas e apoiantes pensam ser uma “aproximação cuidadosa” extraordinária. Eu vestia coletes à prova de bala, e os meus guarda-costas também tinham essa opção – comprei cinco conjuntos. Tinha um antigo polícia e um outro no activo como meus conselheiros de segurança. Tinha sensores no meu edifício. Gastamos imenso dinheiro em gravadores, e isso revelou-se realmente compensatório neste caso particular de ataque incendiário porque conseguimos filmar o incendiário enquanto derramava 20 litros de gasolina na fachada do edifício. Infelizmente só estava uma pessoa no edifício naquele momento que, encontrando-se num quarto recuado, não estava a acompanhar o monitor de vigilância. As câmaras justificaram o investimento pois através delas apanhamos várias pessoas que tentavam levantar objectos ou tentavam arrancar sinalização do nosso edifício. Note que estamos localizados numa das vias públicas mais movimentadas de Toronto. E, como em todas as grandes cidades, há regulamentos que limitam a construção de muros até uma certa altura. Há dois meses atrás a cidade forçou-nos a descer o muro de segurança até 2 pés de altura. Naturalmente, não podemos rodear o muro de arame farpado, pois é uma zona residencial e comercial. O facto de ser uma zona central, aonde há sempre pessoas a circular nas redondezas, faz dela uma zona com um certo grau de segurança. Por isso o incendiário foi visto caminhando ao longo da rua e carregando o seu garrafão de gasolina, e a polícia ficou com uma excelente descrição da testemunha ocular. Portanto, entre o vídeo de segurança, a descrição da testemunha ocular e com a minha recompensa de $5.000, estou totalmente confiante que consigamos apanhar esse homem e que ele seja levado a tribunal. Através dele saberemos quem lhe pagou para fazer aquele serviço.

Quando é que este ataque incendiário ocorreu e qual o dano que provocou?

Eram 5 horas da manhã do dia 5 de Maio, e algumas pessoas disseram que foi deliberadamente designado com a celebração do dia VE em mente. Com efeito, eu estava naquele momento no oeste do Canadá, no Estado de Colômbia Britânica, para me encontrar com o meu agente Douglas Christie, para falar sobre jogadas legais contra oficiais públicos e alguns agitadores marxistas e judeus que estavam a ameaçar expulsar-me do bairro. Eles tinham organizado um comité para me retirar do bairro aonde vivo e aonde exerço um negócio legal. Estávamos a planear algumas jogadas sob o código criminal do Canadá, mas tal nunca veio a avançar porque na manhã seguinte soube pelas notícias que a minha casa tinha sido incendiada. Infelizmente, a minha inestimável biblioteca pessoal sofreu quase uma total destruição. Alguns dos livros tinham trezentos ou quatrocentos anos. Muitos deles foram-me legados por europeus mais velhos por causa do meu trabalho. A grande infelicidade no meio de tudo isto foi que, devido ao conteúdo valioso que tinha na minha casa, nunca encontrei quem me fizesse um seguro no Canadá. A partir do momento em que alguém se torna vítima de atentado bombista, entra num grupo de risco para o qual ninguém irá vender um seguro.

Isso é uma tragédia. Mas podia ter sido pior: podiam tê-lo morto.

Oh, sim. Estivesse eu em Toronto e teria sido certamente morto neste ataque. No quarto aonde eu normalmente durmo as chamas, o fumo e a fuligem eram tantas que os gases ter-me-iam morto.

E agora foi alvo de um atentado de assassínio através de uma carta armadilhada.

Sim. Isso foi outro tipo de situação deveras bizarra, em que a bomba que me tinha sido enviada vinha envolta num invólucro que tinha o aspecto de um livro. Quando pegamos no embrulho, ele era muito pesado. Aquilo tinha um capa; tinha uma lombada curva; era certamente um livro. Mas comparei com outros livros e apercebi-me que mesmo com o papel mais pesado seria necessário muito mais volume para serem do mesmo peso. Das duas uma, ou alguém me tinha enviado barras de ouro ou então era algo pior.

Felizmente recebi uma chamada de Vancouver de um conhecimento antigo, meu colaborador político. Quando lhe dissemos o número do código postal que estava na encomenda, ele disse, “Incrível, é o meu número postal!” Fiquei chocado. Eu tinha visto o homem duas semanas atrás. E ele não tinha dito que me ia enviar uma encomenda.

Por isso, dirigi-me à polícia. Coloquei a bomba no meu carro e conduzi até à esquadra. Fui prontamente advertido pela polícia. Disseram-me que não se devia conduzir pela cidade com bombas na mala do carro.

Sim [risos].

Naquele momento eu ainda não sabia que era uma bomba, apenas suspeitava. E, além disso, as relações com os meus vizinhos já estão tão condicionadas e tensas que eu não queria que eles ficassem chateados devido a uma evacuação de bairro por causa de um falso alarme. Se aquilo era um logro, pareceria ridículo, e também por isso não chamei ninguém da comunicação social. Mantive o engenho dentro do meu escritório durante quase uma semana e por isso apercebi-me que se aquilo fosse realmente uma bomba, seria daquelas que não explodiria enquanto não fosse aberta. A equipa anti-bomba de Toronto deduziu exactamente o mesmo logo após ter pegado nela e depois de ter confirmado através de raio-X. Por isso, não fui assim tão estúpido. Tinha depositado a bomba numa área vazia do parque de estacionamento da esquadra da polícia. Depois a equipa anti-bomba fez o que lhe competia com o robot. Colocaram a bomba num contentor à prova de explosão, levaram-na até uma zona desabitada e ali mesmo a explodiram.

Está inquieto pela possibilidade das suas “nove vidas” se esgotarem num dia destes?

[Risos] Bem, penso que ainda me sobram umas seis ou sete vidas!

Aquilo que é realmente interessante é que depois dos peritos terem analisado a bomba, constataram que se tratava de um bomba muito potente que teria morto qualquer pessoa que se encontrasse num raio de 90 metros do rebentamento. E eu vivo numa zona densamente povoada, na baixa de Toronto. Se aquilo tivesse rebentado teria arrasado o bloco por completo.

Já há alguma pista ou suspeitos?

Não, ainda não; a investigação ainda está no seu começo.

O curioso é que no dia 13 de Abril foi-me enviado, a partir de um endereço em Vancouver, um envelope contendo um tapete de rato no qual estavam aplicadas umas lâminas muito afiadas. Nele vinha também uma carta ameaçadora, que se dizia proveniente da “Milícia Anti-Fascista”. Diziam que se tratava de uma declaração de guerra e que aquilo era apenas o primeiro dispositivo e que no mês seguinte poderia ser o “boom”. Era assim que terminava a carta.

Ao longo dos anos, quando se tem um high profile , começa-se a receber cartas ameaçadoras e recebem-se muitos telefonemas ameaçadores. Eu fiquei um pouco mais preocupado quando surgiu aquela organização que me queria tirar do bairro e quando milhares de cartazes foram distribuídos por toda a cidade de Toronto com instruções de como construir um cockteil molotov e diversos tipos de bomba, juntamente com uma figura da minha cara e a minha morada. O título desse cartaz era “Maçado?”, depois aparecia o cockteil molotov e depois a minha casa e endereço e a minha cara. Entreguei todos estes dados às autoridades, alertei a comunicação social canadiana através de comunicados de imprensa, coloquei tudo disponível às agências de inteligência que são responsáveis pela segurança daquele país. Fiz tudo aquilo que um cidadão deve fazer, mas mais, fortifiquei o meu edifício ao ponto de algumas pessoas se referirem a ele como um bunker , que não era. Era apenas um edifício bastante seguro que mesmo assim não estava imune a incêndios.

E as autoridades perseguiram vigorosamente esses casos?

Sabe, tenho recebido chamadas ao longo dos anos de muita gente, de amigos da área nacionalista, revisionistas e outros de todo o mundo – e agora de novo, por causa do que se passou – e eles são todos muito cínicos em relação à polícia e autoridades. Mas tenho que dizer que, no meu caso – e não digo isto porque espere favores da polícia de Toronto, digo apenas porque é um facto – o departamento da polícia de Toronto tem sido a organização, em toda a minha tremendamente difícil luta contra o lóbi de promoção sionista do “holocausto”, que mais tem mostrado profissionalismo e um método imparcial de lidar comigo. Eles garantiram-me os meus direitos constitucionais, e isso é do seu mérito exclusivo porque a campanha de ódio dos média contra mim tem sido tão intensa e perversa que é um milagre que a polícia tenha tido uma aproximação tão profissional. Estou convencido que se houver impressões digitais nesses dispositivos, se houver responsáveis que os meus $5.000 de recompensa possam trazer, a polícia ira processar essas pessoas.

Agora a próxima pergunta é: Será que os tribunais, os procuradores, irão prosseguir vigorosamente com este caso? Penso que não.

O que é que o leva a pensar assim?

Porque a polícia prendeu oito pessoas junto ao meu edifício depois de uma recente manifestação violenta. Tem que reparar que já tivemos manifestações no meu bairro com mais de trezentas ou quatrocentas pessoas. A última só teve cerca de 250 pessoas. Foi muito violenta. Os manifestantes foram seguidos pela polícia, e oito deles foram presos por ameaçar os polícias com armas e por terem atirado objectos contra os agentes. A polícia estava bem preparada para incidentes com fogo, pois vi uma unidade especial com quatro polícias carregando extintores durante a manifestação. Por isso, a polícia não é o problema.

O problema foi que a senhora procuradora de Toronto fez uma não-procuração, isto é, uma procuração tão mal preparada que nem submeteu as cassetes de vídeo a cores que tínhamos, mostrando as faces camufladas daqueles manifestantes terroristas, e em que tínhamos feito zoom às pessoas que estavam a atirar objectos, mostrando outros que estavam a ameaçar a polícia, e por aí fora. Nada disto foi apresentado como prova.

O juiz, sentado na sua cadeira, virou as costas para mim enquanto eu estava no lugar de testemunha a ser questionado. Toda a sala do tribunal estava cheia de anarquistas, esquerdistas, comunistas, e judeus. Ele tratou-me como esterco e mandou todas aquelas oito pessoas para casa.

A polícia fez tudo correctamente – protegeram a propriedade privada, protegeram o meu direito constitucional de falar, levaram as pessoas à justiça, prenderam-nas, acusaram-nas devidamente e depois tudo caiu por terra. Se eu fosse um daqueles manifestantes marxistas, apostado em fazer a vida negra a um homem como Ernst Zündel, eu tomaria isto como um encorajamento oficial.

Evidentemente. Parece que os média são igualmente culpáveis. Neste país ouvimos virtualmente nada daquilo que se passou consigo.

Em Toronto, as pessoas que realmente “acenderam o fusível” foram os média mais conhecidos. Eles enveredaram por uma campanha de ódio de um forma vergonhosa e sem vergonha – especialmente desde as celebrações do 50º aniversário do fim da II Guerra Mundial. Culpadas são também as pessoas que colocam cartazes à entrada da minha casa afirmando que tinham incendiado a minha casa como forma de celebrar o dia VE. Eles tanto atiçaram o fogo da discriminação contra as pessoas alemãs que mais tarde ou mais cedo era certo que iria dar barraca. E foi isso que aconteceu. Eles agitaram e agitaram e agitaram até que encontraram alguém suficientemente desequilibrado para pegar fogo à minha casa.

As organizações judaicas e esquerdistas querem calá-lo e sufocar o debate acerca do que realmente se passou com o povo judeu durante a II Guerra Mundial. Mas por terem-no colocado a si em julgamento há dez anos atrás acabaram gerando o maior debate público sobre esse assunto que o mundo jamais assistiu.

Sim. Basicamente eles marcaram aquilo que nós chamamos em alemão um eigentor , isto é, um golo na própria baliza. O seu ódio finalmente virou-se contra eles próprios. O julgamento de Ernst Zündel ficou para a história canadiana. Nós acabamos, através do julgamento, com uma das leis mais perniciosas – uma lei que poderia levar a que escritores e emissores se virassem contra ela muito facilmente. O Tribunal Supremo declarou-a inconstitucional, e nós definimos no processo a nossa nova carta de direitos, o Decreto dos Direitos e Liberdades ( Charter of Rights and Freedoms , no original) muito próxima da americana. Só me foi permitido fazer as minhas próprias emissões e a minha própria TV e programas de acesso público por causa desta vitória no Supremo Tribunal. Por isso, é verdade: eles perseguiram-me durante nove anos nos tribunais; e no final, o mal produziu o bem.

Recentemente publicou um enorme livro de 564 páginas detalhando o julgamento, estando cheio de documentação magnífica das evidências que foram levadas até ali.

Foi compilado pela minha agente Barbara Kulaszka, e o título é Did Six Million Really Die?: Report of the Evidence in the Canadian ‘False News’ Trial of Ernst Zündel . É uma síntese das 12.700 páginas de transcrições do julgamento numa linguagem de fácil leitura. O livro é, como apelidou um dos professores de topo da Europa, uma enciclopédia do “holocausto”, porque os dois lados são apresentados. As testemunhas da procuração, incluindo o Dr. Hilberg dos Estados Unidos, conhecido como o “papa do ‘holocausto’”, Christofer Browning, o seu discípulo, e outras, são instadas em tribunal. Não estamos diante de um mero livro, é um testemunho dado sob juramento e verificado em instância jurídica. As pessoas já não têm que comprar um medíocre livro pró-“holocausto” ou um menor livro anti-“holocausto”. Está tudo num só livro: o “holocausto” como evento histórico ou como não-evento está aqui resolvido. Foi tudo explicado em detalhe numa sala de tribunal em Toronto.

Aquilo que temos que fazer agora é tornar o grande público consciente que aquilo que estamos a falar não é um evento histórico – e tenho que ser brutal, e vou dizê-lo –, é um embuste. É um embuste que defrauda as nações. A nação germânica foi a primeira e principal vítima, defraudada em mais de 100.000.000.000 (cem mil milhões) de marcos. Houve alturas em que o Estado de Israel arrecadou mais de 40% ou 41% desta quantia, directa ou indirectamente proveniente das “reparações” – dinheiro que o povo alemão pagou para propaganda. Foi um acontecimento totalmente criado nas cozinhas psicologicamente envenenadas de guerra da II Guerra Mundial, dirigidas pelos ministérios de propaganda de muitos países, não apenas pelos britânicos ou americanos, mas também pelos russos e, sem dúvida, pelas organizações judaicas mundiais. O povo alemão foi defraudado em mais de cem mil milhões de marcos. É um embuste. Não é um evento histórico.

Eu não sou contra que o povo judeu, ou alguma outra pessoa que tenha sido ilegal e imoralmente privada da sua liberdade durante a II Guerra Mundial seja restituída. Ou se houveram judeus na Alemanha cujos negócios foram embargados eles devem ser devidamente restituídos. A nação alemã é magnânima até na derrota, e eles têm um sentido de justiça e eles querem, certamente, reparar o estrago que foi causado injustamente. Eu sou totalmente a favor disso. Mas não para deixar que as gerações do povo alemão sejam defraudadas, e depois sejam difamadas através de filmes como A Lista de Schindler , de Spielberg.

Considera-se um revisionista.

Sim, considero-me.

Agora esse termo foi manchado pela comunicação social. Os mídia tentam dar impressão que os revisionistas são parte de um movimento sinistro com o fito de rever a história à la 1984 de George Orwell. Mas trata-se verdadeiramente do contrário. Pode explicar porque é que se chamam revisionistas a vocês próprios?

È um ponto muito interessante. Revisionistas americanos, franceses, ingleses, e até judeus como David Cole e o senhor que foi testemunha por mim, Joseph Burg, e o professor [judeu] francês Dommergue: estas são pessoas que desejam olhar para a história, torná-la concordante com os factos, percebendo os documentos e eventos históricos; despi-la da retórica e da propaganda; e, depois, basicamente, escrever uma história factual.

Mas como alemão – e eu sou alemão de nascimento –, nós alemães estamos condenados uma vez mais a ser revisionistas radicais. Porque, repare, nós perdemos a nossa honra enquanto nação. Perdemos a nossa auto-estima. Também perdemos as instituições do nosso país. Não nos permitiram construir organicamente sobre a nossa longa história e herança. Por isso, um alemão revisionista tem que, não só rever os factos históricos, mas também questionar as fronteiras, porque fomos destituídos de vastos territórios na II Guerra Mundial. Como revisionista alemão, eu “lanço uma rede maior” do que um revisionista americano ou francês. Eles apenas estão empenhados naquilo que o Dr. Faurisson, o revisionista mais conhecido do mundo, diz ser a maior aventura intelectual do fim do século XX. Para mim, como alemão, quero a restaurar a honra da minha nação. Quero que as mentiras sejam expostas como mentiras, fraudes como fraudes. Quero que as fronteiras sejam reconhecidas aonde residiam os alemães étnicos muito antes da América ter sido sequer descoberta. Na Alemanha, devemos rever o nosso sistema político, que nos foi enxertado por conquistadores aliados. Conquistadores nunca, nunca conquistam uma nação para lhe dar liberdade. Eles trouxeram controlo. O governo no poder na Alemanha, agora expandida até ao rio Oder, é um instrumento de controlo aliado, não um governo de liberdade. Nós, alemães, precisamos de revisão a partir do interior – das nossas fronteiras, das nossas instituições. Os americanos apenas se preocupam com “haviam lá câmaras de gás, ou não haviam câmaras de gás?” Eu sou o mais radical e o mais arrebatador dos revisionistas e é por isso que alguns dos revisionistas mais intelectuais me olham, por vezes, de soslaio. Eles podem dar-se ao luxo de serem académicos. Eu sou um revisionista activista porque nós, como alemães, queremos o nosso país de volta, queremos a nossa honra de volta. Queremos que a geração dos nossos pais seja exonerada e reabilitada. Espero que esta tarefa esteja cumprida pelo ano 2000, independentemente de bombas ou fogos.

Lamento ter que dizer que a maioria dos americanos – e aqui falo dos americanos médios, americanos comuns do dia-a-dia de ascendência germânica, que recebem as notícias dos principais jornais e cadeias televisivas – pensam que os revisionistas do “holocausto” são uns fanáticos e intolerantes cheios de ódio. “Toda a gente sabe”, assim dizem, “que os alemães mataram seis milhões de judeus inocentes por gazeamentos. Dizer que isto não aconteceu é o equivalente a dizer que a Guerra Civil nunca aconteceu.” O que diz a estas pessoas? Qual é a evidencia mais forte para por em dúvida a história dos “seis milhões”?

Essa é uma questão muito boa e alargada. Como sabe, eu comissionei um perito americano em câmaras de gás, chamado Fred Leuchter, para ir a Auschwitz, Birkenau e Majdanek, que eram alegadamente os “centros industriais de matança” para onde os alemães supostamente aviavam todo o tipo de pessoas para as suas câmaras de gás. Esse perito voltou com 33 (trinta e três) amostras – amostras de solo, amostras de rocha, amostras dos drenos, das paredes, dos tectos. Ele levou consigo um desenhador e um operador de câmara que gravaram todas as actividades enquanto estavam a retirar as amostras. Todas estas amostras foram ensacadas. Eram lidadas apenas com luvas de borracha. Estavam numeradas e datadas. Foram desenhados desenhos técnicos de todas as instalações, e ali foram marcados os locais aonde, em cada instalação, foram recolhidas as amostras. Elas foram levadas para os Estados Unidos e foram testadas através de um “teste cego”; não foi dito ao laboratório aquilo que estavam a testar. Pensavam que tinha sido um acidente industrial. Os resultados não revelaram vestígios nenhuns do composto mortífero em algumas das principais “câmaras de gás”. Por exemplo, em Auschwitz-1, para onde têm sido levados turistas durante os últimos 40 anos, não foi encontrado nem um pequeno vestígio do composto Zyklon-B. Isto é, para mim, prova forense científica. A ciência não suspende as suas regras ou as suas leis para sionistas, comunistas, nazis ou para qualquer outro grupo.

Estás a dizer que esses eram os compartimentos aonde se reclama terem ocorrido as execuções em massa através de gás?

Certo.

E esses mesmos compartimentos não apresentam sinais de compostos letais?

Não há vestígios, ou então vestígios muito diminutos, o que tem, aliás, uma explicação: como morgues, e é isso que aqueles compartimentos eram, tinham que ser desinfectados. Quando são colocados cadáveres numa morgue, eles arrefecem e os piolhos abandonam os corpos. O piolho é o principal transportador da doença do tifo. Estas salas tinham que ser desinfectadas de vez em quando. E nós obtivemos uma amostra-teste de uma sala, uma verdadeira sala de despiolhamento que tanto polacos, alemães e judeus e toda a gente concorda ter sido uma câmara de despiolhamento de colchões, uniformes e etc. Tiramos uma amostra dessa sala como uma amostra guia, e comparando-a com aquilo que eram as “câmaras de gás”, aonde milhões foram supostamente exterminados por gás, é incrível o quão alto era o resíduo que estava ali. E como não existentes ou tão pequenos eram os resíduos que estavam nas alegadas “câmaras de gás”.

Este relatório, chamado Relatório Leuchter, está incluído no seu livro enciclopédico.

Certo. O exame completo, com todos os desenhos, está ali, bem como o folheto pelo qual fui acusado e que serviu de base à litigação de nove anos.

Já admitiu uma motivação patriótica ao querer limpar os alemães destas acusações da propaganda de ódio. Existe uma motivação política da parte de todos os revisionistas do “holocausto”? Eles estão todos na direita política?

Na verdade, isso é uma interpretação completamente errónea que foi criada pelo lóbi de promoção do “holocausto”; organizações como o Centro Simon Wiesenthal. Simplesmente não é verdade.

O meu amigo Joseph Burg, judeu romeno, que foi um revisionista do “holocausto”e que escreveu cinco livros, não era com certeza um pró-nacionalista ou um pró-nazi. Ele próprio sofreu durante a II Guerra Mundial. Muitas destas pessoas são autênticos campeões da verdade. Eles combatem pela verdade acima de tudo. Vão desde o Paul Rassinier, socialista francês e membro da Assembleia Nacional francesa até ao Dr. Faurisson. O Dr. Faurisson chegou ao revisionismo como um homem de esquerda e não de direita. Lembro-me quando estive com ele pela primeira vez na Califórnia em 1979, ele era tudo menos nacionalista. Bradley Smith dos Estado Unidos, que era casado com uma mulher judia, era tudo menos nacional-socialista ou nacionalista. O mesmo pode ser dito de muitos outros revisionistas.

Que eu, Ernst Zündel, seja, como alemão, um pró-germânico apaixonado é algo que as pessoas podem e devem perceber. Se vier a suceder alguma desgraça à América, como aconteceu com o povo alemão, eu espero e rezo para que os filhos dos americanos se levantem e defendam a América tal como eu tento defender o meu próprio grupo étnico. Não estou a dizer que durante a II Guerra Mundial a Alemanha, sob a liderança do governo nacional-socialista, não tenha cometido crimes. Vendo as coisas à distância, verificamos que se tratava de privar as pessoas da sua liberdade, colocando-as em campos de concentração, negando os seus direitos humanos. Eu fiquei chocado quando durante o meu julgamento constatei a facilidade com que se podiam colocar pessoas em campos de concentração na Inglaterra, no Canadá, na América, na Alemanha. Parece ter sido uma síndroma de campos de concentração que se alastrou por todo o mundo Ocidental. Por isso não devemos julgar países como a Alemanha, ou mesmo os encarceramentos de japoneses canadianos no Canadá ou de japoneses americanos na América através das normas ligadas aos direitos humanos que temos hoje em dia. Não era moda ser um activista dos direitos humanos em 1935, 1940, 1941 ou 1942. No Canadá não era moda certamente. Não conheço ninguém que tenha protestado contra a encarceração de japoneses. Não conheço nos Estados Unidos. E certamente não terei ouvido de nenhum activista dos direitos humanos na Rússia durante o tempo do Gulag de Estaline. E na Inglaterra era a mesma coisa.

Creio que devemos deixar a guerra para trás. Há um mundo de ignorância e apatia para ser conquistado. O revisionismo histórico é uma ferramenta que serve para fazer com que a história esteja conforme os documentos, e não com a propaganda.

Usualmente a história é escrita pelos vencedores. O senhor está a tentar corrigir isso cinquenta anos depois.

Dizem-me isso muito frequentemente, e eu estou farto das pessoas dizerem “é justificado”. Tudo é justificado porque, afinal de contas, “nós ganhamos” a II Guerra Mundial.

Se isso é verdade, então todos os GIs , todos os tommies britânicos, todos os soldados canadianos e todos os outros soldados que fizeram parte desta coligação de 51 países que estavam em guerra contra a Alemanha têm que acarretar com a responsabilidade do que aconteceu ao mundo Ocidental e ao mundo em geral. A subjugação de Estaline de metade da Europa: 250 milhões de europeus que viveram meio século sob um horrífico império soviético, e todas as milhões de mortes que daí resultaram – eles são responsáveis por isso. Nem tudo são rosas. E aqueles GIs que bombardearam a Alemanha até ao tutano são responsáveis pelo que aconteceu à nossa sociedade na América, no Canadá, na Inglaterra. São responsáveis pelas actuais leis de imigração.

Não está na moda nem é politicamente correcto dizer, mas eu ganhei legitimidade pela encarceração, multas, bombas e fogos postos, e digo-lhe que toda a confusão em que vivemos hoje, o esgoto em que se tornaram as nossas sociedades, a roubalheira, a litania, tudo começou em 1945.

Já o disse anteriormente neste programa e vou dizê-lo outra vez: 1945 foi uma vitória do comunismo e daqueles que estavam nos bastidores do comunismo em ambos os lados do Atlântico.

Correcto. Eu quero defender a geração dos meus pais. Foi uma magnífica geração. Essa geração de alemães, juntamente com os voluntários da Dinamarca, Holanda, até mesmo da Inglaterra e da divisão Índia Livre, e outras, estava bem alerta para o perigo do bolchevismo. Cinquenta anos antes do Presidente Reagan ter falado no império do mal, o meu pai estava a lutar esse império do mal às portas de Moscovo. Penso que já é tempo para que o mundo Ocidental respeite aqueles homens que lutaram a caminho de Estalinegrado tentando derrubar esse império do mal. Não há escusa para o bolchevismo de Estaline, e é uma vergonha que o homem Ocidental, que os europeus, que os germano-americanos, que os anglo-saxões se tenham aliado com a União Soviética para deitar por terra uma potência europeia. Não estou a dizer que Hitler era um menino de coro. O que estou a dizer é que aquele que estiver inocente na II Guerra Mundial que atire a primeira pedra.

Quando é que vai haver um monumento ou uma super produção de Hollywood fazendo memória aos mortos sob o comunismo? Gostaria de ver isso a acontecer.

Estou muito esperançado. Eu já vivi na América do Norte, e tenho lutado pela liberdade, internamente, no Canadá e na América. Especialmente na América. Eu tenho muita esperança que a salvação – e isto pode soar-lhe estranho, como americano que é – venha da América. A derrota da Europa veio da América. Estaline foi desgastado pelos Alemães. A América salvou o bolchevismo. Estou muito confiante que a liberdade seja salva, e que a liberdade venha da América do Norte. O conceito que temos da liberdade de expressão agora no Canadá e na América permite-nos corrigir a história. Ainda ontem recebi uma chamada telefónica de um jovem alemão que assistiu a uma conferência de Raul Hilberg, o “papa do ‘holocausto’”, que disse em Heidelberg há menos de uma semana que não devemos silenciar o debate sobre o “holocausto”. Deve-nos ser permitido levantar questões sobre o “holocausto”.

Isso é um bom sinal, mas em muitos países pode-se ir preso por duvidar da história dos “seis milhões”.

Está a olhar para uma pessoa que foi presa. Eu passei seis dias numa prisão alemã e fui multado em 12.600 marcos, cerca de $10.000, apenas por esse motivo. Isto vai agora para o Tribunal europeu dos direitos humanos, porque o sistema judicial alemão não permitiu que Fred Leuchter, o Dr. Robert Faurisson e o perito em químicos alemão G. Rudolf fossem minhas testemunhas, mesmo quando essas três pessoas estavam na sala de testemunhas, prontas a dar o seu testemunho. Eles não permitiram que eu apresentasse provas exoneratórias ou pelo menos as razões porque eu pensava como pensava. Isso é totalmente ilegal segundo o código europeu de direitos humanos, e estou bastante esperançado que consigamos, eventualmente, reverter este julgamento.

Bom, espero que essas leis sejam também revertidas. De um ponto de vista americano, de onde ainda vamos tendo liberdade de expressão (apesar do lóbi sionista que está a tentar retirar-nos esse direito), parece-me inconcebível que pessoas estejam a ser presas por duvidar da versão de um evento que ocorreu há 50 anos atrás. É uma loucura.

Eu estou, como europeu, absolutamente chocado com o povo europeu. E também estou chocado com os nacionalistas europeus. Eles deixaram-se castrar tão silenciosamente. Eu, como é óbvio, aculturei-me na América do Norte. E sou particularmente orgulhoso daquilo que os americanos e os germano-americanos alcançaram há 200 anos atrás com a Constituição Americana, com o Código de Direitos ( Bill of Rights , no original) e suas várias reformas. Eu reclamo isso como parte da herança germano-norte americana. Fico triste que nunca tenhamos conseguido exportar esse conceito para a Europa. Se a Europa, a Alemanha, a França, os países periféricos da Europa, tivessem uma pequena ideia do vosso sistema nós poderíamos pelo menos conseguir algumas mudanças pois teríamos a liberdade para falar. Por isso é que a América é tão importante. Todos os problemas que você e eu sabemos que existem na América são muito pequenos quando comparados com os problemas que teríamos se não pudéssemos falar para fora.

O senhor foi provocado pelas suas crenças. O seu negócio foi arruinado. Lutou em tribunal durante quase uma década da sua vida contra a pena de prisão ou deportação, e agora quase foi morto. Muitos teriam desistido há muito tempo, teriam ido observar os pássaros ou velar pelos seus jardins. O que o leva a persistir e porque?

Muitas pessoas, como os meus filhos e netos, perguntaram-me isso, e devo dizer-lhe que a partir do momento que te tornas consciente da verdade, do que realmente se passou, é horrível. O mundo está realmente agarrado a uma manipulação histórica que nos deitará a todos por terra. Se persistirmos em pensar que aquilo que temos é história e usá-la como precedente para uma sociedade melhor, então não iremos herdar nada senão ruínas. Eu quero um mundo melhor, um mundo mais limpo, mais seguro, mais são. Posso assegurar-lhe que 99% dos homens que morreram do lado alemão morreram por uma causa nobre. Foram quase 10 milhões de alemães que deram as suas vidas na II Guerra Mundial, civis e soldados. Eles não tinham que morrer em vão. Eu estou a assegurar-me que as suas mortes são enobrecidas através do um esforço para mostrar aquilo pelo que lutaram.

Para ser franco, penso que também já conseguiu enobrecer as mortes de soldados americanos. Eles acreditavam que estavam a lutar pela liberdade de expressão, entre outras coisas.

Eu realmente tenho pena dos soldados americanos, veteranos canadianos e veteranos britânicos. Quando eles ouvem os seus netos dizer que já não estão seguros nos seus recreios, e quando assistem à sua televisão pública tornar-se um esgoto que promove a droga e etc., pergunto-me se aqueles veteranos não estarão a sofrer um trauma psicológico e uma dor ainda maiores do que os dos alemães que foram militarmente derrotados, e que, por isso, já não podiam fazer mais nada.

Posso dizer que conheço vários. Conheço um homem que, literalmente, não consegue falar do seu serviço na II Guerra Mundial. Ele esteve num bombardeiro que bombardeou a Alemanha, e ele não consegue falar disso. Ele desfaz-se em lágrimas.

Penso que é altura de estendermos as mãos àqueles que foram enganados, bem como aos próprios impostores. Em todos os meus programas e em todos os meus escritos, sempre estendi a minha mão a judeus decentes e a pessoas que serviram a causa aliada.

Digo-lhes: Cinquenta anos passaram. A guerra foi uma tragédia para todos nós: todos os que foram tocados por ela, e não apenas os judeus. Os judeus não têm direitos de autor sobre o sofrimento. Vamos agora prosseguir com as nossas vidas e criar um mundo melhor.

Como podem os nossos ouvintes contactá-lo caso estejam interessados em saber mais sobre os seus esforços e publicações?

Podem escrever para:

Mrs. Ingrid Rimland Zündel

3152 Parkway #13, PMB109

Pigeon Forge, TN 37863 USA.

(endereço actualizado em 2004)

Sr. Zündel, admiro a sua coragem, e quero agradecer-lhe do fundo do meu coração pela sua luta incansável a favor da verdade numa época aonde reina a mentira.

Entrevista a Ernst Zündel conduzida por Kevin Alfred Strom em 1995 e publicada na revista Free Speech , vol. I, nr. 6, Junho de 1995.

Entrevista a João Aguiar

João Aguiar nasceu em Lisboa em 1943, sendo licenciado em Jornalismo pela Universidade Livre de Bruxelas. Profissão que exerceu durante anos, optando, neste momento, por se dedicar à escrita a tempo inteiro.

O romance A Catedral Verde, agora editado, vem terminar um ciclo que começou com Os Comedores de Pérolas, todo ele passado em Macau, continuando anos depois com O Dragão de Fumo, que se inicia em Portugal, mas logo regressa a Macau, onde a acção se desenvolve.

Com A Catedral Verde, a personagem principal, Adriano Carreira, regressa, ao nosso país novamente. Na busca de uma tranquilidade, que todo o tempo lhe foge.

Um romance que passa pelo misticismo, mas que sempre se entende como uma procura da portugalidade, no nosso conturbado e banalizante tempo.

A Catedral Verde é o final de uma trilogia?

Iniciada com Os Comedores de Pérolas e continuada com O Dragão de Fumo. Mas não tinha intenção de escrever mais dois livros com a mesma personagem.

Porquê a necessidade voltar ao protagonista de Os Comedores de Pérolas?

Para poder regressar a Macau, onde tudo tinha começado. Fiquei sempre com uma certa frustração de não trazer de volta o protagonista ao ambiente onde ele estava no princípio de O Dragão de Fumo.

Poder-se-á, então, dizer que esta personagem o apanhou?

Apanhou-me, embora não obsessivamente. É um facto haver vários traços comuns entre esta minha personagem e eu próprio, sem que isto seja nem uma autobiografia nem um auto-retrato.

Mas não há entre ambos uma enorme semelhança…

Sim, existem semelhanças.

Poderá ser vista como um espelho esta personagem?

Não exactamente como um espelho. Muitas vezes, para a construção de uma personagem escolho um padrão, um modelo, que depois é retratado, que serve apenas de ponto de partida. Para este Adriano Carreira eu sou esse padrão. Mas eu não sou ele e ele não «é eu»…

Quem o conhece a si consegue desligar a personagem do seu criador?

Depende do leitor. Depende de até que ponto o leitor me conhece.

Tudo isto não é um jogo?

É. Mas todo esse jogo entre autor e personagem é muito pouco claro, muito pouco racional, muito equívoco, mesmo para o próprio autor. Onde é que nós começamos e acabamos? Onde começa a personagem e ela acaba, é complicado dizer. Eu, por exemplo, não tenho essa noção.

É um livro místico?

Não sei se é místico. Também já lhe chamaram um livro desencantado.

E não é?

Claro, mas o desencanto e o misticismo, em princípio, não se dão bem. Eu diria antes que é um texto com uma preocupação mística, espiritual.

Só espiritual? Então, não existe uma busca de santidade ao longo de toda a história?

Certo, há uma busca de santidade. Mas a questão está na definição de santidade, que a própria personagem não tem bem a certeza do que é.

Então, qual será a grande preocupação deste romance?

Há nele uma grande preocupação com as transferências. Ou seja, com a falha de ligação entre o indivíduo e a transcendência.

A busca do Graal?

Sim, há a busca do Graal. Há uma demanda do Graal, que aliás é o nome de uma das partes deste livro.

Lado esse que equilibra o desencanto de que já falámos?

Equilibra, se bem que nessa busca do Graal haja também um elemento que faz parte do desencanto.

Há ainda o lado irónico. A ironia, neste caso, não será uma defesa?

Talvez seja uma defesa. Eu acho sempre muito difícil analisar-me, analisar a minha acção e mais ainda a minha intenção na escrita de um livro.

Já entendeu o porquê dessa dificuldade?

Porque eu penso que na escrita de um livro existe uma componente obviamente racional, portanto lógica, e depois uma outra componente que é justamente o oposto, e que se não é irracional é inconsciente.

Não obtém resposta às suas próprias interrogações?

Umas vezes tenho resposta, outras vezes não tenho. Ou a resposta que eu tenho não é clara. Ou às vezes a resposta é-me dada por um leitor.

Em todas as buscas que ele faz em A Catedral Verde, pelos campos, pelas florestas, pelas grutas, não há, de facto, uma busca da portugalidade?

Há. Uma portugalidade não no sentido nacionalista pequenino, nacionalista folclórico, à Estado Novo, mas uma portugalidade profunda. Uma portugalidade, portanto, aberta.

No sentido da esperança, do futuro possível para Portugal, enquanto Nação, enquanto Pátria?

Enquanto Nação, identidade, sim. Creio que isso fica claro. Embora haja só uma esperança e não uma certeza. É essa, também, a minha posição pessoal. Mas há elementos que nos permitem ter ainda essa esperança.

Amor absoluto é inusitado em época descartável

«Gosto da história de “Tristão e Isolda”, de um velho romance medieval, e de Wagner. É uma das minhas óperas preferidas»

Porquê a abordagem do tema «Tristão e Isolda.» neste romance feito no ano 2000?

Precisamente por ser, de facto, uma coisa tão inusitada, tão completamente estranha nesta nossa época. O amor absoluto, total, obsessivo, exclusivo, numa época eminentemente descartável.

O ser amado também já é descartável?

Sim, hoje em dia descarta-se o ser amado com uma certa facilidade. Por isso mesmo Tristão e Isolda é uma ideia exótica.

Wagner é aqui o desafio?

Claro. Por outro lado, existe também uma questão de gosto pessoal: eu gosto muito da história, de um velho romance medieval, e gosto de Wagner. Uma das minhas óperas preferidas de Wagner é Tristão e Isolda, que considero uma obra-prima do verdadeiro erotismo em música.

Que considera ser o verdadeiro erotismo?

Digo verdadeiro erotismo, porque hoje em dia se confunde cada vez mais erotismo com pornografia. Quando se vê explicitamente o acto sexual com todos os pormenores chama-se erótico, mas na realidade é pornográfico.

O erotismo é o ser nivelado?

Erotismo é a sugestão, é o meio desvendado. Muito mais a ideia de, do que a acção. E toda a estrutura da música de Tristão e Isolda é, quase diria, de um orgasmo retardado, que só acontece no final, com a morte de Isolda. É uma peça musical magnífica.

Considera que o filtro do amor do século XXI pode ser o Viagra?

Tanto não acho que coloquei a minha personagem a recusar essa hipótese. Por reacção à teologia do Viagra, ele escolhe exactamente o oposto, considerando que o filtro do amor seria, neste caso, a impotência de um dos parceiros do par amoroso. Tristão.

Há mais referências culturais neste seu último romance do que em qualquer dos anteriores…

Aconteceu. Não houve, da minha parte, uma vontade deliberada nesse sentido.

O protagonista é um intelectual. Será por esse motivo?

Tem toda a razão de ser, mas na realidade fi-lo inconscientemente.

Ele é, paralelamente, um autocrítico?

Essa é uma das semelhanças que tem comigo. Eu disfarço bem, mas sou muito autocrítico.

Não haverá uma contradição nessa atitude dele e na sua permanente busca da felicidade?

Busca de felicidade ou, pelo menos, de paz interior. Não, não me parece que haja qualquer contradição.

Mas, sempre que alcança essa paz de que fala…

Alguma coisa lhe foge.

Alguma coisa critica e pensa estar mal, estar errada.

É um facto. Para já, creio que isso é muito humano, depois, mais uma vez, não foi minimamente premeditado.

Ele é uma pessoa que se deprime?

Não sei se se deprime. Sei que, a todo o custo, quer evitar a autoglorificação, que ainda por cima considera ridícula, entre outras coisas. Eventualmente pode cair num excesso de autocrítica. Mas eu prefiro um excesso de autocrítica a um excesso de autoconvencimento.

Diário de Notícias, 31 de Março de 2001

Entrevista a José Hermano Saraiva

José Hermano Saraiva

Queixa-se de que por vezes as entrevistas o levam por maus caminhos. Uma vez, levado a comparar Cavaco Silva a António Oliveira Salazar, respondeu o que lhe ia na alma: “Cavaco é apenas um pobre diabo.” As palavras causaram-lhe dissabores. O então primeiro-ministro nunca mais lhe falou. José Hermano Saraiva faz questão, agora, de pôr os pontos nos is: acha que Cavaco foi “um honesto gerente”. Sobre a História recente de Portugal não muda: gosta de Salazar e de pouco mais.

O seu pai era um homem notável, foi pastor e chegou a reitor do Liceu Passos Manuel. É verdade?

O meu pai nasceu prematuro, no dia 1 de Abril de 1881. O mau avô tirou uma telha de meia-cana, deitou-o na telha e sobravam ainda três dedos. O meu avô olhou e disse: “Não vai vingar.” Sobreviveu. A morte do meu avô chegou quando o meu pai tinha apenas dez anos. Sendo ele o mais velho de muitos irmãos, não pode frequentar a escola primária. Um dia, viu no lixo os fragmentos de um livro. Aprendeu a juntar as letras e decorou o livro todo. Simplesmente, não compreendia as palavras. Então foi pedir ajuda a um professor. O livro estava escrito em latim. O professor ficou impressionado. Levou-o logo a exame da primária e o meu pai passou. Depois uns fidalgos contrataram-no para ser mestre dos filhos. Quando as crianças foram fazer o exame a Lisboa, o meu pai acompanhou-as e também fez o exame. Os professores do Liceu Passos Manuel propuseram ao ministro que o nomeasse professor supra-numerário para que ele pudesse fazer o curso de Letras. E assim foi. O meu pai foi o número um do curso. Acabou a formatura e casou-se em 1913. Foi para Leiria e lá esteve durante 20 anos. Nascemos todos lá. Em 1933, foi preciso um professor no Liceu Passos Manuel. Viemos para Lisboa e o meu pai acabou por ficar reitor.

O seu pai passou aos filhos a paixão pela História…

Passou-a a todos.

Mas o senhor estava talhado para Direito…

Não, não. Fui para Letras. Lá em casa eu e o meu irmão [António José Saraiva], na altura com oito e sete anos respectivamente, ajudámos o meu pai a fazer o livro dos painéis do Infante Santo. Foi esse o leite que bebemos. Mas quando estava a acabar o curso de Letras, tentei agredir um professor. Fui castigado com uma nota baixa e, por revolta, tirei também Direito.

O senhor e o seu irmão [António José Saraiva, falecido em 1993] tinham visões diferentes do Mundo. Discutiam?

Nunca discutíamos. Eu e o meu irmão éramos uma alma com dois corpos. Não passávamos um sem o outro.

A que se deve a sua admiração por Salazar?

Milhões de portugueses estiveram com esse homem, à excepção de uma pequena minoria. Salazar não era como estes de agora, que se encarrapitam todos para lá estar meia dúzia de meses. Ele não era nada democrata. A democracia quer dizer que o maior número tem razão. Alguém acredita nisto? Neste país de analfabetos, o maior número é de primatas e são eles que mandam.

Serviu o Estado Novo. Não se arrepende de nada?

Não. Quanto mais o tempo passa, mais admiro Salazar. Conto-lhe uma história: numa altura em que Salazar estava doente com uma pneumonia, Supico Pinto disse-lhe que tinha uma excelente notícia: havia sido descoberto petróleo em Cabina. Salazar, debaixo da sua pneumonia, disse: “Só nos faltava mais essa. Estamos tramados!” Já sabia que isso ia atrair os americanos e a CIA. Foi isso que derrubou o regime.

Quando Salazar foi exonerado e substituído por Marcello Caetano, o senhor continuou como ministro da Educação. O antigo presidente do Conselho morreu sem saber que já não governava. Também fazia parte dos ministros que continuavam a ir a despacho?

Não. Sei que foi mandado de novo para o Palácio de S. Bento, sei que continuavam a chamar-lhe senhor Presidente, sei que se fazia uma triagem da imprensa que lhe permitiam ler. Ouvi dizer que dois terços do cérebro tinham sido destruídos por aquela hemorragia. Mas parece que andava, falava, via. Porém, nunca ninguém lhe deu a notícia de que já não era presidente do Conselho.

Estava de acordo com Marcello Caetano sobre a mudança de regime, a “evolução na continuidade”, como então se dizia?

Penso que a evolução na continuidade é uma expressão retórica. Não há possibilidade de evolução na continuidade. Salazar era contra a democracia, acreditava no governo das elites. Caetano acreditava na importância do voto.

Como viveu, enquanto ministro da Educação, a revolta dos estudantes de Coimbra, em 1969?

Esse episódio não teve importância nenhuma. Criaram essa lenda.

Mas não é de lendas que se faz a História?

Exactamente. Em Coimbra, não havia Associação Académica. Eu achei isso mal. Dei posse a uma lista apesar de me terem dito que eram comunistas. Na sessão de inauguração do Edifício das Matemáticas, na sala com capacidade para 200 pessoas estavam umas 500. Fiz o meu discurso, que os rapazes aplaudiram muito. O presidente da Associação de Estudantes, Alberto Martins, levanta-se e pede a palavra.

O Presidente da República, Américo Tomás, fica embezerrado: diz que sim, mas primeiro dá a palavra ao ministro das Obras Públicas. Aquele sim era um não. Quando o ministro acaba de falar, Américo Tomás dá como encerrada a sessão. E gera-se na sala um ambiente pesado. Encaminham-nos para sair e os estudantes ocupam as escadas. A massa estudantil que estava na escada murmurava qualquer coisa que eu não percebia. Foi um episódio não preparado, resultante da incúria, porque, se não tivéssemos deixado os estudantes ocupar as escadas, nada disso teria acontecido. Entendi que não havia razão para nenhum processo, embora o Presidente da República tenha ficado muito aborrecido. Mais tarde, disseram-me que tinham prendido o Alberto Martins. Liguei ao ministro do Interior para saber o que se passava. Ele também não sabia, mas disse-me que ia tratar do assunto. Deu ordens e o rapaz foi libertado imediatamente.

Quando é que se deu conta de que o regime ia mudar?

Só a 25 de Abril de 1974. Havia o problema de África, mas eu ignorava o papel da CIA. Havia uma grande selecção de informação e, quando aconteceu o 25 de Abril, eu era embaixador em Brasília.

Acha que os americanos tiveram um papel determinante na queda do regime português?

Não há dúvida nenhuma disso. Prepararam, primeiro, o golpe de 16 de Março. O projecto era derrubar o regime com o Spínola. Mas a esquerda apercebeu-se disso e não saiu com o Spínola. Prepararam o segundo golpe.

O professor faz uma História virada para os heróis. Quem foi herói no pós 25 de Abril?

Não há heróis. Penso que se deve a Mário Soares a reconciliação da família portuguesa. Mas não apareceu nenhuma grande figura. O país é dependente do estrangeiro.

Álvaro Cunhal é uma figura importante da História?

Foi líder de um partido que discutia a legitimidade do Governo constituído. Foi um líder coerente com as suas ideias, toda a sua vida. A obra dele foi destruir Portugal. Mas, pessoalmente, é um homem que merece toda a admiração.

Como vê os novos líderes, como Santana Lopes?

Não julgo que sejam importantes. Portugal é metade rural e metade pequeno burguês. Uma pequena fímbria de pequenos intelectuais fazem o partido da esquerda e os grandes proprietários fazem o CDS. A grande massa pequeno burguesa faz os partidos do centro. Estes dois partidos (PS e PSD) defendem o mesmo e estão certos com o País que nós temos.

Vota nas eleições?

Nem sempre. Nas últimas eleições europeias não votei, porque aquilo não queria dizer absolutamente nada. Já votei no Mário Soares para a presidência.

Foi presidente do Instituto de Assistência a Menores, que tutelava a Casa Pia. Como é que vê este escândalo da pedofilia?

Sempre houve práticas dessas na Casa Pia, como nas casernas, nos navios, nos quartéis, nos seminários, como em outro lugar onde há muita gente do mesmo sexo. É da natureza humana. Considero viciosa a empolação que se deu a isto. Evidentemente que quem está envolvido tem de ser punido, mas estas coisas têm de ser passadas num certo recato. E aquela juíza histérica [Filipa Macedo] que diz que o juiz não pode ser amorfo… O juiz tem é de ser uma pessoa neutra.

Vê com optimismo o futuro de Portugal?

Não, mas pode ser que aconteça um milagre. O problema é que os nossos milagres aconteceram quando havia mundos por descobrir.

In Focus , nº 256.

Que diagnóstico faz do estado da nação?

Os portugueses estão com falta de confiança em si próprios. A crise que se vive é mais visível do ponto de vista orçamental, mas há outros aspectos, menos claros, e mais perigosos ainda.

É uma crise generalizada?

Por deve profissional percorro com regularidade o País e constato que a forma de encarar a crise é profundamente diferenciada. A capacidade produtiva do nosso País está em baixa, ao passo que o consumo está em alta, o que cria um desequilíbrio funcional. Já passei por localidades que aparentemente não tinham ninguém e que, todavia, estavam com as ruas pejadas de automóveis.

O automóvel é para muitos um símbolo do Portugal moderno…

É a ostentação do “status” social, mas que não está a ser acompanhado pela criação de novas fontes de riqueza.

Pensa então que o País funciona a duas velocidades?

Exactamente. O importante é diversificar. Um País pobre como o nosso não pode aspirar a produzir nem melhor nem mais barato como os outros, mas pode fazer diferente. A solução terá que ser encontrada no fabrico de produtos distintos e na aposta no gosto português. É sabido que uma Europa cada vez mais rica, paga cada vez mais cara a diferença. Por isso penso que se deveria dar uma importância superior à azulejaria portuguesa, ao fabrico das porcelanas e aos revestimentos cerâmicos.

É preciso virar a agulha para um discurso optimista?

O futuro está nas nossas mãos. E digo isto não apenas no sentido retórico, mas também no sentido da habilidade e do fazer.

Penso que o português não presta tanta atenção quanto devia a esta faceta. Basta olhar para o património nacional que está muito mal estimado. Em algumas cidades portuguesas não se presta atenção aos valores que as podiam tornar diferentes. Estamos a sacrificar o para sempre, ao para já.

O que não deixa de ser contraditório, numa altura em que o turismo é a principal fonte de entrada de divisas…

Como somos um País sem indústria, sem agricultura, sem minérios, sem ouro nem prata, sem pesca, temos de nos afirmar fundamentalmente como uma nação de serviços. Mas que serviços? Podíamos fazer como a Suíça, que é um País de banqueiros – têm lá dinheiro de todo o mundo. Mas nós nem o nosso guardamos, quanto mais o alheio…

Mas mesmo em termos turísticos pensa que as potencialidades estão a ser totalmente aproveitadas?

Não há um serviço turístico em Portugal. Há comissões regionais de turismo que não têm dinheiro nem competência. Quem manda sã as câmaras. Como sabe há 306 autarquias e, como tal, 306 projectos turísticos. Tem que haver unidades com grande poder e grande capacidade de intervenção, mesmo do ponto de vista financeiro. Ouvi a boca de um responsável turístico no Algarve que não há dinheiro para mandar fazer um mapa do qual já consta a nova auto-estrada…

Seria necessário a criação de um Ministério do Turismo?

Não. O que faz falta é um Orçamento para o turismo. Em Portugal, o litoral está completamente abandonado. Não há nenhum plano nacional para preservar o litoral. Cada câmara tem o seu “quintal” da orla marítima. Portugal está reduzido a 88 mil quilómetros quadrados e cerca de um terço está amortizado por essas reservas ecológicas. A questão da amortização do País foi um dos problemas com que lutaram os reis de Portugal; a partir de D. Afonso II começou-se a fazer leis de desamortização, contra os bens entregues à Igreja que não produziam rendimento para a coroa, também chamados de bens “mão morta” – ou seja a mão que não trabalha. Quer-me parecer que voltamos a estar perante um país de mão morta e tanto me faz que a justificação seja a propriedade eclesiástica ou a preocupação dos ecologistas. Com estas restrições o País não dá rendimento.

Está contra a preservação da orla costeira?

A intervenção humana numa paisagem tanto pode desfigurá-la, como valorizá-la. Muitas vezes para não se fazer asneiras não se faz coisa nenhuma. Do estuário do Tejo até à ponta de Sagres é proibido fazer seja o que for. Portugal é pequeno demais para isso ser possível. Tem que ser proibido fazer asneiras no País, seja delapidar o património, obstruí-lo, degradá-lo como se tem feito, nomeadamente no Algarve.

Como é que perspectiva o futuro turístico em Portugal?

Defendo uma alteração muito profunda na política turística. O turismo social não é o que nos interessa atrair em termos de dinheiro em caixa. Temos de apostar no turismo de qualidade que só demanda zonas preparadas e que não se satisfaz com um povo que cospe no chão, com comboios cheios de fumo de tabaco, serviços desmazelados ou elevada sinistralidade rodoviária.

Disse que o futuro está nas nossas mãos, mas não crê que continuamos à espera que as soluções caiam do céu?

Portugal é uma pátria sebastianista. Esperamos sempre que chegue lá de fora um D. Sebastião. E, até à data, temos tido sorte. Dos saques nas terras dos mouros ao aparecimento de Nun’Álvares, aos êxitos militares dificilmente explicáveis de Aljubarrota, à exploração da costa africana, do Brasil e depois da Índia, assim vivemos até 1974…

Deu-se a revolução e posteriormente aderimos à Comunidade Europeia. Pensa que os fundos comunitários têm sido correctamente aplicados?

Os políticos fizeram o que puderam e conforme as luzes que Deus lhes deu. Os fundos estão a acabar e continuamos à espera de outro D. Sebastião. Há quem volte os olhos para Espanha, mas creio que o “país vizinho” tem os seus próprios problemas, e não pode ser ama de ninguém. O D. Sebastião tem que vir cá de dentro. É uma questão de repararmos bem. Os recursos de salvação nacional mantêm-se em Portugal – nomeadamente a habilidade manual dos portugueses.

Quando é que despertamos para esses “recursos de salvação nacional”?

Antes de mais é preciso alertar contra um certo pessimismo latente – por vezes escandaloso – , mesmo ao nível de altos dirigentes, que constantemente passam a ideia de epílogo e sugerem a aceitação das soluções que não são portuguesas.

É preciso levantar o moral da nação?

É. Não compreendo é que no momento em que se fala tanto em liberdade, se fale tão pouco em independência. Até porque a independência é a forma essencial da liberdade.

Quando faz esse alerta significa que a independência está de alguma forma ameaçada?

Creio que há pessoas que acreditam que ela está ameaçada e se resignam a isso. Vejo, por exemplo, com alarme, que deixou de se ensinar a História de Portugal aos portugueses. Pior: vejo pessoas envergonharem-se da História nacional, mas do que não conhecem – nunca um tão pequeno povo fez uma obra tão grande pelo entendimento entro todos os povos da Humanidade. Constato, tristemente, que em Portufal está na moda ser anti-patriota. O português culto deixou de ser patriota e pensa que o patriotismo é uma forma de paisagismo, rusticidade e sentimento rural.

Fala-se muito dos nossos vizinhos da Península. Há quem diga que eles fazem pela via económica o que não fizeram pelas armas…

Os espanhóis fazem aqui o que nós deixamos fazer. Não são os portugueses que vão, entre outras coisas, pôr gasolina a Espanha?

Como comenta a sugestão do empresário José Manuel Mello para que “se começasse a fazer a Ibéria”?

Ele que vá dizer isso no país Basco ou na Catalunha que sofreram na pele a destruição dos valores culturais próprios, de que resultou a sua integração na tal Ibéria. Eu sou pelas pátrias. Creio que a Ibéria seria muito mais rica se respeitasse as fronteiras de alguns dos seus componentes.

A evolução do projecto europeu não vai contribuir para fragilizar o conceito de soberania nacional?

Pelo contrário. A razão porque a Europa é uma região extremamente rica de ideias, conceitos e de valores, está na diferença e nas identidades contrastantes. A Europa é tanto mais rica, quanto mais originais forem as pátrias. Experimente sintonizar uma rádio ou uma televisão de qualquer país da União Europeia e verá reclamos daquilo que é nacional. Aqui em Portugal, é que não…

Não pensa que o denominado “directório dos grandes” possa ser nefasto para os nossos interesses?

Há sempre o perigo de numa Europa com tantos membros serem criados blocos, em que Portugal apareça como país satélite, mas para isso lá estarão os nossos diplomatas. Qualquer que seja o regime jurídico, se mantivermos uma cultura própria, um culto das nossas raízes, o estudo das nossas razões peculiares, estaremos a salvo de qualquer ameaça.

Pensa que é suficiente?

Há mais de 500 anos que o País Basco está sem soberania, sujeito à administração castelhana e isso não matou a individualidade regional. Continuam agarrados a tudo o que é basco: a língua, a comida e a própria boina. Se tivéssemos essa força não havia regime jurídico que pudesse apagar a nossa individualidade.

O Padre António Vieira dizia que “o sonho português é ter um pouco de terra para viver e o mundo todo para morrer”. Em que medida é que este pensamento se encaixa na nossa forma de ser?

Continua a ser profundamente verdade, na medida em que Portugal foi sempre uma terra de emigrantes. Os solos nacionais são pobres, as famílias reproduzem-se naturalmente e os portugueses têm que procurar no mundo a sua maneira de viver. Mas agora em certos sectores burgueses optou-se por uma outra alternativa: acha-se que o melhor é não nascer.

Está a referir-se ao decréscimo acentuado da natalidade?

A população portuguesa está a diminuir rapidamente, as escolas estão a fechar, as mães demitiram-se de o ser e o aborto tem um amplo sector da opinião a apoiá-lo. É a solução do não nascer. Na encruzilhada, este País tem que escolher decididamente entre o Natal e o aborto.

Foi Ministro da Educação durante o Estado Novo ao longo de ano e meio. Como é que explica que sejamos um dos países da U.E. que mais investe e que menos resultados apresenta?

Não sou taumaturgo, mas no nosso País criou-se uma tradição de fazer um responso a Santo António quando as coisas desaparecem. Pois faço aqui um desafio: façamos um responso a Santo António para compreender o que é feito das verbas que desaparecem sem deixar fruto.

A quem atribui responsabilidades pela crise do sistema, em especial no ensino superior?

Os estabelecimentos de ensino superior são totalmente irresponsáveis. O Governo não manda nas universidades, mas também não manda nos quartéis, nas polícias, nos hospitais e nos tribunais. Chegámos a um feudalismo administrativo em que o Governo é a cabeça de turco, sendo atacado por todos os males que acontecem, mas nenhum dos serviços é responsável perante o Executivo…

Quer dizer que as universidades vivem num mundo à parte?

A pretexto da autonomia universitária as instituições de ensino superior na admissão de pessoal deixam de fora os melhores e vão buscar outros através de uma cooptação profundamente corrupta. E porque é que não há uma suprema instância de recurso para contestar essa escolha?

Pensa que há um défice qualitativo nas universidades?

As pessoas de verdadeiro valor estão fora das universidades. É chocante ver docentes apresentarem-se com o título “prof. Dout.” Cuja indigência mental é evidente a todas as luzes. Os erros do sistema de ensino residem essencialmente nos professores. Os alunos são apenas um dado do problema.

Não é estranho que a última reforma de fundo remonte a 1970 com Veiga Simão?

Não há uma reforma verdadeira no sistema de ensino desde o Marquês de Pombal. O que houve foram arranjos e rearranjos. Não censuro que ministros façam reformas com o seu nome, mas fundamentalmente o legado deixado por Pombal aplica-se na actualidade: primário, secundário e superior.

Diria que estamos perante um ensino do tempo de Pombal?

Não diria tanto. Mas o espírito de que o professor é que sabe e ministra, e o aluno ouve, é uma concepção arcaica do ensino.

Como explica a pouca propensão para se introduzirem reformas?

Os professores são responsáveis. O próprio Pombal teve dificuldades em aplicar a sua reforma porque os professores eram os mesmos… Já o povo dizia “meter vinho novo em odres velhos”. O vinho sabe ao mesmo…

Disse recentemente que os livros que se escrevem hoje “são quase todos monos de prateleira”. A literatura que se produz é de má qualidade?

Os portugueses são excessivamente conservadores e têm uma grande preguiça no pensar. Dá menos trabalho dizer o já dito. O nosso próprio ensino é de “papa feita”. Já no tempo de Eça de Queiróz a cultura vinha de França, empacotada, e antes provinha dos latinos. A ideia de que nós temos de ser a fonte do nosso próprio pensamento tem sido difícil de impor. O Marquês de Pombal proibiu a sebenta, mas ainda hoje, no século XXI, há sebentas nas universidades.

Estamos a poucos dias do Euro 2004. Pensa que o futebol é o “ópio do povo”?

Hoje o estádio substitui o templo. Juntando-se ali um grupo incrítico, que defende o seu clube com unhas e dentes. Infelizmente não lhes ocorre que aquele fanatismo é só uma prova da miséria do juízo humano. Reconheço que há coisas piores. Mas como alguém me dizia no outro dia, os governos para evitarem o sarampo da política, recorrem ao cancro do futebol.

A Expo 98 foi um dos eventos mais elogiados. Segundo li discorda do rumo temático que os responsáveis deram ao evento…

Inicialmente a exposição foi feita para comemorar os 500 anos da viagem de Vasco da Gama à Índia mas, na prática, evitou-se falar do assunto. Os Descobrimentos e a História de Portugal foram intencionalmente omitidos. Fazer uma exposição mundial só para limpar um bairro infestado, é pouco…

Pensa que aqui houve, mais uma vez, pudor em dar a conhecer a nossa História?

Não tenho dúvida. Os intelectuais portugueses enfermam de uma enorme falta de sentido nacional. É um defeito, da mesma forma que se é míope, gago ou se tem uma úlcera gástrica.

A campanha eleitoral das europeias não tem primado por diálogos muito edificantes. O senhor que foi deputado como é que observa a actual classe política?

O carreirismo e a estrutura dos partidos num país da nossa dimensão tem obrigado metade de Portugal a chamar nomes à outra metade. Depois revezam-se, quando mudam da oposição para o Governo. Isso gera um descrédito que acaba por concluir que são todos iguais. Mas que diabo: então não se arranjam pelo menos deputados que respeitem as boas maneiras?

A abstenção é a única forma e penalizar esta classe política?

Importa reflectir sobre se realmente os comportamentos a que temos assistido prestigiam o exercício do poder. Que não pode haver sociedade sem poder, estamos de acordo. Outra questão é: pode haver poder no meio do insulto, da insinuação malévola, da deturpação sistemática das intenções do Executivo, da desobediência organizada e proclamada? Tenho assistido a coisas horrorosas, inclusive a demissão da capacidade de mandar.

Pensa que é preciso reformar seriamente o sistema político e os elementos que o compõem?

Este sistema que cada Governo é o melhor ou o pior do mundo baseado na rotatividade é muito mau. Devia ser proibido dizer mal dos Governos, embora fosse permitido criticar na profundidade as linhas gerais das soluções e dos rumos políticos seguidos.

A lógica da calúnia está distribuída por igual entre Oposição e Governo. Seguindo este rumo nunca mais temos executivos estáveis em Portugal.

Justificava-se a guerra do Iraque?

Qualquer que seja o pretexto, a guerra é um crime e quem a promove é um criminoso de guerra. O Iraque “conseguiu” imobilizar os mecanismos que o mundo civilizado tinha criado para defesa da paz (as Nações Unidas) que agora estão mudos e calados perante a destruição de um pequeno país às mãos de uma superpotência. Os políticos oscilam entre os interesses e os valores. Pelos valores todos somos pela paz, mas nos interesses, não podemos dizer que o somos. Chegámos ao absurdo que a própria invasão do Iraque foi justificada teoricamente para salvar a paz. Fez-se a guerra em nome da paz. O verdadeiro governo do mundo é um poder chamado dinheiro.

Criou polémica uma sua declaração em que disse que “Salazar era antifascista”. Como explica a reacção imediata de vários quadrantes?

Os fascismos tornaram-se odiosos pelo seu grau de violência, matando milhares de pessoas e conduziram os países a situações de penúria atrozes. Por isso admito que muitas pessoas por pura inocência e outras tantas por má fé resolvessem rotular com essa odiosa palavra o Governo do Dr. Salazar. Os governos têm tanta dificuldade em se justificar a si próprios que se atribuem esta coisa miraculosa: “Livraram-nos do cancro do fascismo”. É inventar uma atitude que me parece verdadeiramente difamadora e caluniosa.

Nos discursos pessoais do Dr. Salazar há a condenação aberta dos fascismos. Ele põe em prática as doutrinas das encíclicas cristãs de Leão XIII. Os fascismos eram regimes autoritários, sem dúvida, mas o Estado português não era pelo progresso industrial (era conservador e ruralista) e não defendia o apoio às milícias armadas profundamente anti-religiosas que substituíam os partidos.

Retirado da edição de 8 de Junho de 2004 do jornal O Diabo

Entrevista a José Barra da Costa

Da identidade e acções dos terroristas à absolvição final, a obra ‘O Terrorismo e as FP 25 anos depois’ percorre quase toda a saga da organização terrorista que operou na democracia portuguesa. O seu autor não hesita em apontar o dedo: “No processo de pedofilia da Casa Pia há nomes que não apareceram porque foram negociados nas amnistias das FP”, diz.
d.r.

A acusação abrange políticos, governantes e Ministério Público. É aquilo que apelida de “acordos políticos e judiciários feitos com criminosos terroristas”. Explica a privatização do Terrorismo e afirma que em Portugal ninguém perdeu dinheiro com as FP. Nem os bancos. Fala das centenas de armas que nunca foram recuperadas, mas diz que não tem medo. Afirma que passados estes anos ficou um respeito mútuo entre os operacionais da PJ e os das FP. Cada um no seu lugar… Os outros, que se escudaram discretamente no legalismo, diz, não avançam porque esses é que têm medo.

José Barra da Costa, foi o investigador da Judiciária que liderou a infiltração e caça às FP 25 de Abril. Ele e mais três colegas fizeram-se passar por padre, jornalista, fotógrafo e até por gente dos serviços secretos. Três dos oito anos da investigação foram vividos na clandestinidade. Igual à dos terroristas. “Chegámos a viver no mesmo prédio”.

Hoje, à distancia dos anos, o antigo inspector-chefe da Judiciária, regista a visão histórica dos factos, mas não resiste a imprimir emoções e revoltas. Reconhece-o, por exemplo, quando agradece a colaboração para este livro ao operacional que foi acusado de ter morto amigos seus. Ao longo de ‘O Terrorismo e as FP 25 anos depois’ e da entrevista que nos concedeu há um alerta permanente: “Afirmo neste livro que o descontentamento pode potenciar o aparecimento de novos grupos terroristas. E há um descontentamento social e etnico no horizonte português”. Do fenómeno do terrorismo à luta armada Barra da Costa esmiuça tudo. Quadros, acções, enquadramentos jurídicos e operações. Tudo contado em pormenor, mas sempre polvilhado de uma emoção que não esconde.

O que é que o motivou a escrever este livro?

A Injustiça. A luta armada é apenas uma via. As dezenas de mortos e não sei quantos feridos. E para que alguns académicos relembrem que os doutoramentos só devem ser feitos com base na própria obra.

Refere relações conspícuas e acordos safardanas. Quais?

Não se pense que as coisas estão esquecidas. Houve acordos políticos e judiciários feitos com criminosos terroristas.

Está a dizer que o Estado fez acordos com terroristas?

Sim. Mas as provas só serviram para incriminar os arrependidos. Aos outros terroristas foi proporcionado escapar por entre as malhas da lei… Esbateram provas, disseminaram culpas e até conseguiram baralhar processos. Mário Soares rematou tudo com um indulto e o Ministério Público com outro.

O Ministério Público?

Os senhores procuradores decidiram não recorrer esquecendo os crimes de sangue e a associação criminosa. É um indulto mascarado. Ele há indultos, esquecimentos e amnistias.

Isto para mim é bem mas violento do que a morte de todas as pessoas envolvidas. É Violência Estrutural.

Fala nos troca-tintas do passado que hoje se passeiam pelos salões. Quais?

Da Assembleia da República por exemplo. Os que saíram da LUAR e não tiveram coragem de se assumir FP. Os que passaram pelos GDUP, UDP, PCP, MES e que hoje são do PSD e do PS.

Dispara para quase todos os partidos. Pessoas é que não aponta…

Vá aos livros e jornais, faça a comparação e veja quem são alguns.

Houve traições?

Entre os operacionais. No final já havia quem assaltasse por conta própria.

Privatizaram o Terrorismo?

Alguns reconhecem hoje que só o fim das FP-25 acabou com os oportunismos. Poucos se assumiram operacionais.

E influências internacionais?

Isso lê-se nas actas apreendidas às FP. Havia quem estivesse a favor das mortes e quem estivesse contra. O Otelo disse à saída do julgamento que o José Barradas era apenas um desgraçado pescador e não percebia nada de política. Verdade. Era tão desgraçado que nem foi convidado pela CIA dois anos antes para fazer o 25 de Abril…

Houve mão da CIA nas FP?

Americanos e franceses quiseram provocar o afundamento deste País.

Mas isso é dizer que a direita controlou a extrema-esquerda?

Financiou-a que é pior. Financiaram quem criou o caos para demonstrar que a democracia e o pós-25 de Abril eram uma farsa.

Os extremos tocaram-se?

São as partes mais facilmente infiltraveis nessas organizações.

Quem é que está à frente dessas organizações?

Invariavelmente intelectuais. Alguns mudam de partido de tempos a tempos. No processo de pedofilia da Casa Pia há nomes de pessoas que ainda não apareceram e ninguém percebe porquê. Foram negociados nas amnistias das FP.

Dê-me um só exemplo?

No final dos anos 80 algumas pessoas da política reuniram com elementos das FP-25 para estudarem as amnistias. Nessa reunião foram apresentadas fotografias sobre pedofilia para pressionar o Governo a dar indultos e amnistias. Essas fotografias hoje não aparecem, mas na altura estavam em cima da mesa como moeda de troca. O Terrorismo é uma espécie de Pedofilia da Democracia.

Lembra-se de algum nome?

Lembro. Mas não digo. Nem digo o dos oportunistas que ainda hoje vivem à custa disso. Limito-me a vê-los. Eles sabem que eu sei. Mas há mais pessoas que sabem.

Essa parece uma frase do Octávio Machado.

Este livro é sobre factos. No processo Casa Pia há dezenas de elementos e de apontamentos que nunca vieram a público. Mas mesmo não estando nos autos, existem.

E nunca foram denunciados porquê?

A arraia miúda mesmo que os chefes falem nunca acredita. Os que andaram aos tiros, a fugir e a esconder-se faziam aquilo em que acreditavam. Os apoiantes discretos vivem hoje como se nunca tivessem feito parte da Organização.

É a tese das instituições infiltradas?

Não é tese. Os assaltos eram indemnizados por companhias de seguros que por sua vez foram reembolsadas por seguradoras estrangeiras. Em Portugal ninguém perdeu dinheiro com as FP. O assalto dos 108 mil contos aconteceu porque havia informação interna. O dinheiro foi reembolsado ao banco pela seguradora.

Qual o destino dos 108 mil contos?

Dívidas e financiamentos. Firmas de Import/Export, carros e empresas. E advogados revolucionários que cobravam às FP nove mil contos para a defesa. E muita gente recuada em Moçambique e na Argélia. E o financiamento de jornais.

Quais jornais?

Toda a gente sabe. Dois semanários e uma estação de rádio, hoje muito conhecida.

Nome?

Todos sabemos…

Eu não!

Paciência.

Também fala de infiltrados das FP na polícia?

Há pessoas que antes de serem polícias, já eram conhecidos elementos de organizações terroristas.

Foi portanto com o que esse conceito implica que escolheu a sua equipa para investigar as FP? Que relações mantém hoje com essas pessoas que recrutou?

As mesmas que têm os operacionais depois da guerra. Vêem-se uma vez por ano. Sabiam antecipadamente que iriamos ser tratados como carne para cão. Seleccionei-os na escola da PJ. Três pessoas que se infiltraram em vários quadrantes com resultados excelentes. Ninguém os conhecia.

É verdade que formalmente os quatro nunca operaram?

Pode ser. O trabalho era canalizado para a área das informações, mas antes, por conta própria, cruzávamos tudo com as investigações no terreno. O ministro da Justiça (Rui Machete) que não cheguei a conhecer, não queria (”nem podia”…) saber de nada, apenas queria que se acabasse com as FP-25.

Viveram na clandestinidade?

Os políticos queriam desesperadamente mostrar ao povo que a coisa já estava controlada. Para mim, estava apenas a servir o meu País. Passei por padre, arquitecto, jornalista, fotógrafo e até por homem da Secreta. Três anos sem crachá. Literalmente ‘undercover’ com BI, cartas de condução, arrendamentos, tudo falso. Tudo como o inimigo. E por vezes a viver no mesmo prédio que o inimigo.

No mesmo prédio?

Pois. Há escutas que ainda hoje lá estão. Não houve condições para desmontar tudo. Há segredos que ainda hoje são inenarráveis.

Por onde é que começou?

O primeiro objectivo foi apanhar-lhes um erro.

Qual foi?

Abandonarem os primeiros detidos. Sem apoio, sem visitas, sem família, receberam colo precisamente de quem fugiam. Nós.

Mas se estavam presos?

Melhorámos-lhes as condições e transferimo-los para prisões perto das famílias. Aos poucos ganhamos-lhes a confiança.

As armas das FP (nunca recuperadas) continuam em “boas mãos”?

Continuam, digamos, “guardadas”. Há ideias eternas.

Sabe do paradeiro de algumas?

Sabem os ex-operacionais das FP.

Quantas andarão ainda à solta?

Centenas, à vontade.

Os ex-FP são hoje cidadãos recuperados para a sociedade?

A maioria deles sim. Para a Democracia não sei.

Está-me a dizer que alguns podem regressar à actividade?

Claro. O descontentamento social e étnico está no horizonte.

Nunca teve medo?

Continuo a andar desarmado e sem segurança.

Na sua actividade televisiva trabalha com Luís Gobern, ex-operacional das FP-25 Abril. É fácil conviver com quem foi acusado de ser assassino dos seus amigos?

Pode até parecer promíscuo, mas é já uma relação de amizade. Não esqueci. As feridas deixam cicatrizes, mas doem-me mais as traições do Estado. Os oportunistas deste processo que vivem em Bruxelas cheios de segurança, nos Ministérios, na AR… Isso para mim é bem mais violento do que a morte de todas as pessoas envolvidas. É a Violência Estrutural. Nas estradas morrem duas mil pessoas por ano e doi menos ao País. Estas coisas só se percebem quando a gente as vive. É possível conviver com os assassinos dos nossos amigos, considerando as questões do tempo e as circunstâncias. Eu também fiz coisas que não devia e assumo-as. Porquê? Porque tinha a profissão mais linda do mundo. E isso valia tudo. Inclusive as traições que me foram feitas, na própria polícia para quem eu trabalhava.

É isso que o faz temer mais a inveja de alguns polícias do que a fúria dos guerrilheiros, como escreveu?

Os polícias são seres humanos. Mas quem tem invejas tem poucos ideais. Do outro lado também havia seres humanos mas tinham ideais. A polícia não. Se não, já tinham lutado para não serem a bengala do Ministério Público.

Entrevista a José Campos e Sousa

Campos e Sousa no Festival da RTPCaro Campos e Sousa, « Rodrigamente Cantando» é o seu último trabalho publicado. Uma homenagem ao bardo dos nossos dias e do Nosso Portugal — o nosso muito Rodrigo Emílio. Euterpes coroando Apolo. Pode ser esta a leitura da homenagem?

Euterpes é a Musa da Poesia. Nunca me entenderia no feminino. Também não vejo o Rodrigo a gostar da comparação com Apolo…

Em toda a sua carreira musical (após a « Banda do Casaco») , o Rodrigo nunca esteve ausente. A que ponto a eufonia e a prosódia «rodriguística» foram para si importantes? E a empatia cultural, também pesou? E a amizade?

A Amizade com o Rodrigo veio depois de ter conhecido alguma da sua poesia. Musicá-lo não é difícil, pois é ele que me dá muitas e muitas vezes, através das palavras que usa e do modo como joga com elas – o ritmo e até a melodia adequados aos seus versos.

O Rodrigo tinha também uma muito boa formação musical que estava sempre presente na sua poesia. A música fluía assim por todas as razões expostas e também por uma grande comunhão de ideias, gostos, sensibilidades, educação. Digo comunhão e não sobreposição!

Conte-nos um pouco das noites de trabalho com o Rodrigo, à volta da famosa mesa da sala do Campos Sousa. O Rodrigo a trabalhar consigo era tão exigente como para os seus próprios poemas? E a formação pianística e musical do Rodrigo ajudava, ou não?

A mesa continua na sala e a poesia do Rodrigo continua à minha disposição. Só que até ontem eu podia também contar com o Rodrigo em pessoa . Trabalhávamos com base em poemas já feitos por ele que chegavam à nossa mesa de trabalho quase sempre depois de um jantar cá em casa…

Perante um grande poema que por causa da música tinha que ser adaptado, o Rodrigo sempre me deu carta branca. No fim sujeitava tudo ao seu critério. Ele sempre aprovou.

Quanto a exigências – tinha-mo-las os dois.

A capa do disco apresenta-nos um jovem Rodrigo fardado, «poeta que se vestiu de soldado». O Campos e Sousa também se vestiu de soldado. A sua Cruz de Guerra atesta o valor da dádiva à Pátria. Esta comunhão de combatentes foi importante para o vosso entrosamento? E o exílio que ambos sofreram?

Houve uma razão muito especial para eu querer aquela fotografia do Rodrigo na capa do CD. Em boa verdade, até mais do que uma! A explicação imediata poderão lê-la no desdobrável que acompanha o disco e que contém todos os poemas e textos por mim utilizados.

A outra razão tem que ver com o facto de eu ter conhecido o Rodrigo através dos seus textos e poemas publicados na antologia por ele preparada «Vestiram-se os Poetas de Soldados». O Rodrigo sempre foi as duas coisas, poeta e soldado. Uma das imagens que guardo dele é dos dias 10 de Junho, junto ao Monumento aos Mortos pela Pátria na Guerra do Ultramar: o Rodrigo com a boina castanha do exército (que nós usamos na qualidade de antigos combatentes) e com a sua produção poética bem junto à barriga, segura por um dos braços – um Luís de Camões a salvar os Lusíadas … Ele nunca, mas nunca se separava dos seus poemas.

Insisto. A fotografia escolhida por si e pelo Vítor Luís para a capa não terá um significado mais profundo? Não quer ela dizer que o Rodrigo foi sempre o jovem, que gostava de estar no meio dos jovens, prodigalizando alegremente os seus sermões, apagando-se para que a nova geração pudesse brilhar e trilhar os seus caminhos? «Vocês são do século XXI, eu sou do século XX», dizia ele repetidas vezes…

O Vítor Luís aparece no projecto, naturalmente, e por um sem número de razões: era amigo do Rodrigo. Foi responsável por capas de alguns dos seus livros, nomeadamente pelos «Poemas de Braço ao Alto». Tem uma sensibilidade de artista e uma estética muito ao meu gosto. Tem um enorme sentido de humor. É um grande amigo meu que gosta do que eu faço (desde que eu cante nos registos baixos! – diz ele).

O Vítor Luís trabalhou militantemente nesta capa. Este CD é também dele. Gostava de mencionar igualmente os nomes de António Rangel, Bernardo Albuquerque Couto, Carlos Solano de Almeida, José de Mello Manoel e Manuel Lourenço, que também tornaram possível o CD.

Outro factor de comunhão entre o Campos e Sousa e o Rodrigo Emílio era o vosso comum amor às culturas portuguesa e francesa. Em toda a sua música regista-se o amor e influência do fado e dos bardos de língua francesa, Reggianni, Brassens, Brel, Edith Piaf, Charles Aznavour… Também isso ajudou? E o vosso comum catolicismo e misticismo? E o casamento entre a tradição e a modernidade, tão caro ao Rodrigo?

Sou o mais novo de 4 irmãos (três raparigas). No nosso tempo, mas principalmente no das irmãs mais velhas, a grande cultura era a francesa. Os discos de música ligeira que entravam em casa eram de música francesa. Eu, do alto dos meus 8/9 anos limitava-me a ouvir. Todos nós passámos pelo Liceu Francês.

Logicamente, fui influenciado pela cultura francesa.

Na minha área sempre achei que, em termos de qualidade de texto e de interpretação, os franceses ou francófonos eram os maiores. Lembro o Férré, o Brel, o Reggianni, o Brassens — e ainda o Moustaki e o Aznavour, ligeiramente mais comerciais.

Foi esta qualidade poética e a preocupação que estes intérpretes tinham com as palavras que naturalmente transpus para a minha realidade quando aconteceu começar a editar…

Afinal, o meu gosto pelo que é bom só me tem trazido problemas de sobrevivência musical – portuguesmente falando: é este o meu Fado!

É conhecida a sua comunhão com a poesia e os poetas. Dezenas e dezenas deles foram e são por si cantados. Considera-se um liseur e um diseur da Poesia, um trovador dos nossos dias?

Considero-me somente um apaixonado da Poesia, principalmente a portuguesa que é a que mais conheço. Sou por isso um leitor e um intérprete de poesia – ou trovador.

A Música, o que é? Palavra ou notas musicais? Ou posto de outra forma: o que precede a criação? A música ou o poema?

Falo por mim: a música é uma forma de expressão que traduz sentimentos de todos os géneros – a música é transversal, está em todo o lado: numa estátua, num quadro, numa paisagem, num momento de amor, num momento de raiva, na dor, na escuridão, na luz, na poesia, no mar, e até no silêncio…

Com as palavras passa-se exactamente o mesmo. De todo o modo e no meu caso pessoal, acho as palavras mais importantes do que a música, pois elas são a minha fonte de inspiração.

Vários cantores (ou cançonetistas) afirmam veementemente que a língua portuguesa não «serve para cantar», por isso optam pelos inglesismos. No entanto Portugal tem um repositório de extraordinários poetas em quantidade e qualidade nada despicientes. A sua «arma» é a língua. A prosódia da língua portuguesa é real?

Também sou adepto dos inglesismos, e dos francesismos, e dos espanholismos, e dos italianismos, desde que bons.

Dizer que a língua portuguesa «não serve para cantar» é quase um crime de lesa pátria , revelador de um total desconhecimento.

Felizmente temos em Portugal muita gente a cantar boa poesia portuguesa.

Falemos agora da sua carreira. O Campos e Sousa é um inovador. Trouxe para o fado o violoncelo, o contrabaixo, os bardos franceses. Trouxe agora a nossa gaita de foles. No seu disco «Em Pessoa», trouxe-nos a sempre juvenil e cristalina voz de Maria Germana Tânger. Porquê esta tão apaixonante e apaixonada busca de outros sons, outros caminhos? Hoje muitos o imitam e esquecem o inovador. Sente-se injustiçado?

Nem por sombras me considero um inovador. Violoncelos, flautas, oboés, pianos, etc., fazem parte dos meus gostos musicais – muito influenciados pela música dita clássica que ouvia em minha casa – nesse tempo em que não havia televisão. Ou seja, até aos meus 14/15 anos, no tempo da minha avó Manuela, pianista excepcional.

Enfim, outros tempos…

Quanto a justiça, esta quase nunca é do nosso tempo, mas é sempre feita pelo tempo.

A poesia, não o neguemos, é a sua inspiração. Por que quis cantar poetas nacionalistas como António Sardinha, Alfredo Pimenta, Fernando Pessoa, Couto Viana, Rodrigo Emílio — para não falar em Camões, «esse perigoso fascista»?

Gosto de Portugal. Tenho um orgulho imenso no seu passado. Vibro com os feitos dos seus heróis. Pasmo com a aventura dos descobrimentos.

Claro que o meu percurso de compositor/intérprete tem que passar por esses poetas. A lista está felizmente muito incompleta.

No «Navio Feiticeiro», de Alfredo Pimenta, é feita uma interrogação ao mar, ao homem português, ou melhor, ao Eu Nacional? Por que escolheu esse poema?

Muito mais do que uma interrogação, o «Navio Feiticeiro» de Alfredo Pimenta é uma constatação.

Um quadro desolador, na altura em que o poeta fez o poema.

Um quadro desolador, muitos e muitos anos depois, na altura em que o compositor o musicou.

Fica uma réstea de esperança que nos põe sempre a nós, portugueses, sentados na praia «à espera de um navio que uma tarde há-de chegar».

É bom pela esperança. É mau pelo conformismo.

Este poema, aliás, chegou-me pela mão do Rodrigo Emílio, que me propôs que o musicasse e interpretasse numa sessão comemorativa, salvo erro no centenário do nascimento de Alfredo Pimenta.

O «Mar Português», de Fernando Pessoa, que você compôs com arranjos para orquestra e coro, é um momento musical único. Que nos pode dizer sobre esta peça musical?

Infelizmente nunca tive a oportunidade de ouvir a versão do «Mar Português», tal como descrita nesta pergunta.

Quanto ao poema, o facto de o ter musicado fala por si. É um dos momentos altos da «Mensagem», onde se glorifica, não determinado herói, mas todo um povo anónimo, que batalhou, que sofreu, que matou, que morreu, que chorou, que rezou «para que fosses nosso, ó mar» ou, como eu canto em crioulo: «Pa bu ser di nôs, ó mar».

Este poema, que vesti com a minha música, é de facto um dos momentos altos da «Mensagem».

Cantou também João Conde Veiga (curiosamente falecido no mesmo dia do Rodrigo, e com poucas horas de diferença), Miguel Torga, Diogo Pacheco de Amorim, António Nobre, Branca de Gonta Colaço, António Tinoco, Vasco Teles da Gama, Vasco Graça Moura, Fernando Tavares Rodrigues, Cesário Verde, e tantos outros. Mas também o sublime l’italien. E Brasillach. É uma plêiade de autores. Quais foram as razões?

Então e o David Mourão Ferreira? Então e o Pedro Homem de Mello? Então e o Dinis Diogo, responsável pela minha «Fonte do Tempo»?

Esta coisa de falar em nomes é ingrata pois fica sempre alguém de fora.

Posso dar mil e uma razões para ter musicado cada um destes poetas. Mas existem efectivamente denominadores comuns: todos escrevem bem. Todos têm de algum modo a ver com a minha sensibilidade, seja no amor a Deus, seja no amor à Pátria, seja no amor ao Rei, seja no amor ao amor. Sendo que alguns acumulam mesmo vários destes amores.

Já que falamos no João Conde Veiga, posso dizer-lhe que a primeira vez que o li foi em Moçambique, em plena comissão de serviço militar. «Não fugi à guerra, não fui p’ra Paris, não fugi da terra, não traí o povo – eu fui ao combate debaixo do sol. E voltei de novo….»

Este poema lido na altura certa, e no sítio certo, tornou as minhas certezas ainda mais certas e ajudou-me a passar 30 meses de Império.

Paz à sua alma!

Quanto a Brasillach e aos seus «Poémes de Fresnes» fiquei apaixonado pelo dramatismo de toda a situação – pela grandeza do homem perante a morte e fiquei revoltado por terem fuzilado um poeta.

O «L’Italien» vem-me dos meus amores de juventude pela música francesa e também pela voz de Reggianni.

Nunca cantou poetas como o Goulart Nogueira, Herberto Helder, Ezra Pound, António Navarro, Amândio César…

É verdade, nunca os cantei. Sinto alguma mágoa, principalmente em relação ao Goulart Nogueira. Estou à espera de uma compilação feita pelo Rodrigo e pelo Luís António Serra para fazer um pouco de justiça ao poeta.

Há na sua obra duas influências fundamentais: o Fado e a música francesa. Já nos disse porquê, mas eu insisto: por que persiste nessas referências que parecem estar fora de moda?

Pois! É absolutamente natural que o fado faça parte do meu universo musical. Além de português, nasci em Lisboa. Não sou um fadista. Gosto do fado. Acho que o fado é acima de tudo um sentimento, um estado de espírito e uma filosofia de vida. E não é fadista quem quer.

O fado não encerra um estilo musical definido. Quando dizem que o fado tem regras, discordo, se essas regras querem dizer espartilhos.

Quanto à importância da cultura francesa e pelo facto de ainda hoje ela se fazer sentir no meu trabalho, posso dizer-lhe várias coisas. É certo que nos tempos que vão correndo tudo é muito mais anglo-saxónico-americano – parece um endereço de email , mas não é – estamos na época do fastfood , a comida de plástico a que os próprios americanos chamam «junk food» (lixo). Hamburgers, pizzas, donuts, tudo regado com uma boa coca-cola, colheita do ano…

Se em termos gastronómicos as coisas se passam assim, em termos culturais não é diferente – fast culture, why not?!

O tempo, sempre bom conselheiro, voltará a pôr tudo em seu sítio. Mantenho assim a minha postura, que é como quem diz: mantenho as minhas raízes, muito portuguesas.

Concorda com a ideia por alguns expendida de que o fado e a balada francesa têm em comum uma base trovadoresca e não somente árabe ou berbere?

Nada nasce de geração espontânea. O que aparece hoje é sempre fruto do que houve ontem, mesmo que pareça completamente inovador. Sim, existe uma base árabe no fado. Sim, há uma componente trovadoresca. E felizmente até aos dias de hoje não nos ficámos por aqui.

Os descobrimentos trouxeram a influência africana, a brasileira, etc., e antes disso, a celta. Será legítimo excluir os celtas das nossas raízes musicais?

E antes?… E depois?…

Um aspecto curioso da sua obra, e julgo que único na música portuguesa, é a sua missa em fado. Um trabalho notável com direito ao silêncio e falta de reconhecimento a nível intelectual, a nível das elites e se calhar a nível popular. Quando lhe surgiu esta inovação? E o seu «Pai Nosso» para quarteto de cordas e barítono?

A Missa em fado, com-direito-ao-silêncio, é um capítulo extraordinariamente importante da minha vida musical – gostaria de o tratar isoladamente. Apenas alguma informação: o meu grupo «In Nomine», actualmente constituído pela Manuela Teles da Gama, Filipa Galvão Telles, Bernardo Albuquerque Couto e por mim, toca todos os terceiros domingos de cada mês na Igreja do Sacramento, ao Largo do Carmo, em Lisboa, às 18 horas.

Fica o convite para que, pelo menos uma vez, venham ouvir a Missa em Fado.

Quanto ao Pai Nosso, aliás «Pater Noster», está à espera do tal barítono que o queira cantar – fica o convite…

Sendo um músico autodidacta com um sentir profundamente religioso, você canta o erotismo — o erotismo no seu esplendor em contraposição à pornografia. Foi isso que o levou a cantar as «Rendas Pretas», de Fernando Tavares Rodrigues?

Fernando Tavares Rodrigues é uma das minhas referências na poesia erótica. Outra é David Mourão Ferreira. É claro que sendo homem felizmente heterossexual – sou extremamente sensível ao feminino, e o feminino é e será eternamente fascinante: um olhar furtivo, um tom de voz, um perfume, um gesto, um ar assustado, uma lágrima, uma frase, um momento… e obviamente, umas rendas pretas…

O presidente de uma grande editora discográfica e filho de um enorme Poeta «acusa-o» de ser um autor/cantor excepcional e um péssimo gestor de carreira.

Acho que já tinha ouvido isso em qualquer lado… Não concordo com o adjectivo de gestor . Cheira-me a mercantilismo – cheira-me a cedências e a consensos, a politicamente correcto e, por estranho que pareça, cheira-me a a água pura (incolor, insípida e inodora!).

Ainda bem que geri mal a minha carreira.

Foi graças a isso que conheci pessoalmente, entre outros (por ordem alfabética): António Manuel Couto Viana, António Marques Bessa, António Tinoco, David Mourão Ferreira, Diogo Pacheco de Amorim, Fernando Tavares Rodrigues, José Alberto Boavida (Dinis Diogo), Luís Sá Cunha, Rodrigo Emílio, Vasco Graça Moura e Vasco Teles da Gama.

A todos eles e aos outros todos devo a minha música.

E não podíamos terminar sem voltar ao nosso Rodrigo Emílio. Para onde quer que me volto só ouço amigos a dizerem: «o Rodrigo faz-me muita falta». Passa-se o mesmo consigo?

Sim. Faz-me falta. Mas consigo ultrapassar isso… Por exemplo, nestes últimos seis meses, grande parte da minha vida musical foi canalizada para o «Rodrigamente Cantando». Fiquei a conhecer ainda melhor o Rodrigo Emílio, conhecendo ainda melhor a Tera, sua Mulher, os filhos Constança, Gonçalo e Rodrigo, a sua Mãe Margarida e as duas irmãs. É uma maneira de estar com ele.

Para todos os que lhe sentem a falta tenho um conselho: LEIAM-NO!

Última pergunta: o Rodrigo adorava o «L’ éxilé» de Reggianni. Ouvia-o sempre no mais respeitoso silêncio. Apesar de dizer que não era náufrago de um tempo passado. No entanto o Campos e Sousa nunca o cantou. Porquê?

Não me lembro de ter ouvido «L’Éxilé» de Reggianni. Mea culpa. É uma falha que rapidamente resolverei pois tenho toda a sua obra discográfica.

Lisboa, Novembro de 2004

Entrevista a Jared Taylor

Jared Taylor

Pode dizer-nos quando e porque é que a American Renaissance (AR) foi fundada, e qual a história subsequente da revista?

Eu iniciei a AR em 1990 por motivos que muitos considerariam radicais ou mesmo perigosos: encorajar os brancos a pensar nos seus interesses explicitamente em termos raciais, a reconhecer que todas as outras raças dos Estados Unidos o fazem instintivamente e a compreender que se nós falharmos em agir como um grupo, colocamos em causa, a longo prazo, a nossa sobrevivência como um povo distinto, com uma cultura e modo de vida distintos.

Escusado será dizer que esta mensagem não é bem recebida pelo establishment . Contudo, os americanos comuns cada vez mais se apercebem da crise que o nosso país enfrenta.

A AR é publicada mensalmente há cerca de 14 anos, e o número de leitores continua a crescer. Há cinco anos atrás, começamos a distribuir uma versão electrónica da AR através da Internet, e isto contribuiu para o grande aumento de leitores fora dos EUA.

A minha associação à revista resultou numa certa notoriedade e em várias aparições na rádio e na televisão. Creio que a força lógica e moral da posição da AR está a ganhar reconhecimento apesar da intensa hostilidade a qualquer forma de consciência racial por parte dos brancos.

Pode sintetizar aquilo que você e a AR acreditam?

Eu penso que a ideologia da AR é o realismo e a clareza: realismo no sentido de que a raça é o elemento definidor central da identidade individual e grupal e que, por isso, não pode ser ignorado; clareza porque não pode haver duplos critérios em assuntos raciais e étnicos. Um conjunto de medidas políticas deriva destas posições. Uma avaliação realista da raça conduz à conclusão de que raça e cultura são inseparáveis. Alguns indivíduos conseguem abraçar completamente a cultura estabelecida por um povo de uma raça diferente, mas a maioria não.

É por isto que a raça é a linha divisória social mais significativa em qualquer país e porque os actuais dramas da «tolerância», «multiculturalismo», «inclusão», etc., têm quase sempre que ver com a raça.

Os Estados Unidos são um bom exemplo do significado de raça. Brancos de muitos países foram largamente assimilados – com fricções residuais – por uma cultura anglo-saxónica maioritária, mas os não-brancos não.

A Europa está agora a passar pelo mesmo processo, com país atrás de país a descobrir que quando não-brancos chegam em grande número, eles congregam enclaves não-assimiláveis. Isto levanta a questão da clareza. É repetidamente dito aos brancos que devem fazer todos os esforços para acomodar os alienígenas recém-chegados e até que, se necessário, vejam as suas nações serem redefinidas caso a imigração não-branca assim o exija. É dito aos brancos que se devem preparar psicologicamente para se tornarem uma minoria em relação aos não-brancos, e apesar de isto conduzir a uma desaparição das culturas e nacionalidades que amamos, qualquer um que resista ao despojo é considerado um inferior moral.

Imagine o processo inverso, de brancos a entrarem sem controlo no México ou no Paquistão, impondo os seus costumes aos naturais e até a exigir um tratamento especial porque são minorias reclamando o «dom da diversidade». Imagine os líderes mexicanos ou paquistaneses dizendo aos seus povos que a substituição demográfica é uma coisa boa, e que os novos idiomas, religiões, folclores e taxas de crime, embora possam parecer alienígenas, se tratam na realidade de preciosas fontes de enriquecimento.

É este avanço unidireccional de não-brancos para os territórios dos brancos que faz com que a actual dinâmica migratória seja inaceitável e perigosa para nós.

O que é que a New Century Foundation faz mais, além de publicar a AR todos os meses?

Nós organizamos uma conferência internacional bianual sobre raça e imigração e publicamos um pequeno número de monografias e livros. Além disso, também mantemos uma página na Internet muito activa, em http://amren.com .

Qual é o seu background familiar e político?

Sou filho de missionários no Japão, aonde passei os primeiros 16 da minha vida. Os meus pais eram liberais convencionais, e eu também o fui até cerca dos 30 anos de idade.

O que é que inicialmente o guiou para o interesse pelas diferenças raciais e a imigração? Que académicos, escritores ou filósofos o inspiraram?

Eu passei um ano a viajar na África Ocidental, aonde descobri que as minhas crenças liberais de igualdade das raças e culturas estavam erradas. Passei também dois anos a estudar história e economia em Paris, e gradualmente fui chegando à conclusão que os princípios básicos do liberalismo – que o governo pode melhorar as nossas vidas, que os factores ambientais são muito mais determinantes que os genéticos, que todos os grupos têm o mesmo potencial, que homens e mulheres têm naturezas iguais – são errados.

Fui muito influenciado pelos trabalhos de James Burnham, Arthur Jensen e Wilmot Robertson, mas as conversas tidas ao longo dos anos com outras pessoas racialmente conscientes provavelmente influenciaram-me mais.

Considera que as ideias da hereditariedade estão agora a tornar-se mais aceitáveis?

Sim. O livro Blank Slate de Steven Pinker é um bom exemplo disso. A evidência da influência dos genes é agora tão grande que até os liberais não a podem mais ignorar. Este livro é, porém, uma tentativa quase cómica de um liberal reconciliar o poder da hereditariedade com as posições liberais que são fatalmente minadas por aquele.

Suspeito que a convicção de Watson-Skinner de que o ambiente controla tudo se desmoronou primeiramente em relação às diferenças entre os sexos. Muita gente percebe agora que a falha dos liberais e das feministas em eliminar as diferenças sexuais só pode significar que existe uma base biológica que as explique. Mas é mais difícil para as pessoas aceitarem a mesma ordem de ideias para explicar os diferentes níveis de êxito social dos diferentes grupos raciais, mas isso acabará por acontecer.

Que tipo de medidas devem ser adoptadas para resolver ou, pelo menos, mitigar alguns dos actuais problemas raciais da América?

Eu tenho sempre recomendado apenas duas medidas: o fim da imigração de massas e a abolição das leis anti-discriminação. A população dos Estados Unidos está a crescer ao ritmo da de um país do terceiro mundo, em boa medida por causa da imigração. 90% dos imigrantes são minorias inassimiláveis que trazem divisão e tensão. O aumento populacional vai também forçar o ambiente e as infra-estruturas. Havia 125 milhões de americanos em 1945 e ninguém considerava que o país estava subpovoado. Hoje somos cerca de 290 milhões de habitantes, prevendo-se 500 milhões para o ano de 2070. Pôr um fim à imigração iria parar este crescimento louco.

Quanto às leis anti-discriminação, os cidadãos devem ter o direito de escolher os seus empregados, companheiros de escola ou vizinhos, seja por bons motivos, maus motivos, ou por motivo algum – da mesma maneira como escolhemos as nossas esposas.

A AR tem sido denunciada como um «grupo de ódio» pela organização de extrema-esquerda Southern Poverty Law Center. Mas qual é a atitude dos conservadores americanos – não apenas em relação à AR especificamente, mas também relativamente às diferenças raciais em geral?

Não creio que seja possível dar uma resposta totalmente esclarecedora. Mesmo dentro dos conservadores (infelizmente um termo à procura de significado) há muita resistência a uma percepção realista da raça. Se eles tivessem a certeza que as suas palavras jamais iriam ser repetidas, julgo que talvez 50% das pessoas que votam no Partido Republicano reconheceriam as diferenças raciais ou, importunadas pelo pensamento, as aceitariam como uma possibilidade. Deste número, apenas uma mão cheia tem vontade de tomar uma posição pública sobre raça substancialmente diferente da dos democratas.

Houve alguma mudança discernível nas atitudes dos conservadores americanos em relação à raça nas décadas recentes? O que causou essa mudança?

«Décadas recentes» é uma formulação muito estreita. Se ela inclui a década de 50, a National Review era muito sensível à questão racial. As suas posições diferiam pouco das da American Renaissance de hoje. Durante os anos 60, 70 e 80, houve uma retirada massiva do senso comum. Desde essa altura tem havido uma recuperação muito lenta. O dogma igualitário reina a América, tal como reina a Inglaterra, e as vozes dissidentes são ainda consideradas perigosas e desagradáveis.

A ciência genética moderna complementa o pensamento tradicional conservador ou religioso acerca da natureza humana? Se sim, como?

Ambos conservadores tradicionais e biólogos evolucionistas concordam no seguinte: Homens e mulheres diferem no temperamento e na aptidão. As pessoas nascem com características distintas e não facilmente cambiáveis pela sociedade. A raça e as diferenças raciais são reais. As pessoas são tribais, e dificilmente têm um sentimento de lealdade para com a humanidade em geral.

Mais fundamentalmente, ambos os lados concordam que existe algo que é a natureza humana, e que é uma idiotice tentar refazer o homem. Uma aceitação desta premissa teria evitado não apenas a calamidade do comunismo mas virtualmente cada um dos projectos liberais desde a Revolução Francesa. Horror atrás de horror foi cometido em nome do aperfeiçoamento do homem. Os conservadores – e agora os estudantes da genética – aceitam que muitas das nossas falhas não podem ser corrigidas e que as sociedades que aceitam estas falhas são, de longe, melhor sucedidas do que aquelas que as tentam extirpar.

O egoísmo é um bom exemplo disso mesmo. O capitalismo reconhece que o interesse próprio é o mais poderoso motor do progresso económico. O colectivismo falha porque pretende que o interesse próprio seja ultrapassado. Um dia haverá uma semelhante aceitação da natureza tribal do homem, e os governos deixarão de achar virtuoso forçar os cidadãos a viver com pessoas inteiramente diferentes de si.

Além da política, que outros interesses cultiva?

Tenho dois grandes interesses: a minha família e a música. Ser pai tem sido mais recompensador para mim do que qualquer outra coisa – e eu pensava que ia ser um grande aborrecimento. A população europeia está em declínio em parte porque os europeus são egocêntricos e pensam que as crianças vêm trazer demasiados problemas. Nem que mais não fosse pela nossa sobrevivência, devemos novamente promover a visão de que os filhos são a maior recompensa que se pode ter na vida. Posso não ter acreditado nisso até que eu tive os meus próprios filhos, mas trata-se realmente da verdade.

Quanto à música, toco clarinete numa orquestra sinfónica e num quinteto de instrumentos de sopro e saxofone numa banda de baile. Fazer música é, para mim, um prazer que limpa a mente de tudo o resto. Está reportado que os músicos vivem mais tempo do que os não músicos. A ser verdade, é porque com certeza este imenso prazer mental tem benefícios físicos.

Right Now, Agosto/Setembro 2004
Tradução para o português: Filipe Batista e Silva