Entrevista a João Aguiar

João Aguiar nasceu em Lisboa em 1943, sendo licenciado em Jornalismo pela Universidade Livre de Bruxelas. Profissão que exerceu durante anos, optando, neste momento, por se dedicar à escrita a tempo inteiro.

O romance A Catedral Verde, agora editado, vem terminar um ciclo que começou com Os Comedores de Pérolas, todo ele passado em Macau, continuando anos depois com O Dragão de Fumo, que se inicia em Portugal, mas logo regressa a Macau, onde a acção se desenvolve.

Com A Catedral Verde, a personagem principal, Adriano Carreira, regressa, ao nosso país novamente. Na busca de uma tranquilidade, que todo o tempo lhe foge.

Um romance que passa pelo misticismo, mas que sempre se entende como uma procura da portugalidade, no nosso conturbado e banalizante tempo.

A Catedral Verde é o final de uma trilogia?

Iniciada com Os Comedores de Pérolas e continuada com O Dragão de Fumo. Mas não tinha intenção de escrever mais dois livros com a mesma personagem.

Porquê a necessidade voltar ao protagonista de Os Comedores de Pérolas?

Para poder regressar a Macau, onde tudo tinha começado. Fiquei sempre com uma certa frustração de não trazer de volta o protagonista ao ambiente onde ele estava no princípio de O Dragão de Fumo.

Poder-se-á, então, dizer que esta personagem o apanhou?

Apanhou-me, embora não obsessivamente. É um facto haver vários traços comuns entre esta minha personagem e eu próprio, sem que isto seja nem uma autobiografia nem um auto-retrato.

Mas não há entre ambos uma enorme semelhança…

Sim, existem semelhanças.

Poderá ser vista como um espelho esta personagem?

Não exactamente como um espelho. Muitas vezes, para a construção de uma personagem escolho um padrão, um modelo, que depois é retratado, que serve apenas de ponto de partida. Para este Adriano Carreira eu sou esse padrão. Mas eu não sou ele e ele não «é eu»…

Quem o conhece a si consegue desligar a personagem do seu criador?

Depende do leitor. Depende de até que ponto o leitor me conhece.

Tudo isto não é um jogo?

É. Mas todo esse jogo entre autor e personagem é muito pouco claro, muito pouco racional, muito equívoco, mesmo para o próprio autor. Onde é que nós começamos e acabamos? Onde começa a personagem e ela acaba, é complicado dizer. Eu, por exemplo, não tenho essa noção.

É um livro místico?

Não sei se é místico. Também já lhe chamaram um livro desencantado.

E não é?

Claro, mas o desencanto e o misticismo, em princípio, não se dão bem. Eu diria antes que é um texto com uma preocupação mística, espiritual.

Só espiritual? Então, não existe uma busca de santidade ao longo de toda a história?

Certo, há uma busca de santidade. Mas a questão está na definição de santidade, que a própria personagem não tem bem a certeza do que é.

Então, qual será a grande preocupação deste romance?

Há nele uma grande preocupação com as transferências. Ou seja, com a falha de ligação entre o indivíduo e a transcendência.

A busca do Graal?

Sim, há a busca do Graal. Há uma demanda do Graal, que aliás é o nome de uma das partes deste livro.

Lado esse que equilibra o desencanto de que já falámos?

Equilibra, se bem que nessa busca do Graal haja também um elemento que faz parte do desencanto.

Há ainda o lado irónico. A ironia, neste caso, não será uma defesa?

Talvez seja uma defesa. Eu acho sempre muito difícil analisar-me, analisar a minha acção e mais ainda a minha intenção na escrita de um livro.

Já entendeu o porquê dessa dificuldade?

Porque eu penso que na escrita de um livro existe uma componente obviamente racional, portanto lógica, e depois uma outra componente que é justamente o oposto, e que se não é irracional é inconsciente.

Não obtém resposta às suas próprias interrogações?

Umas vezes tenho resposta, outras vezes não tenho. Ou a resposta que eu tenho não é clara. Ou às vezes a resposta é-me dada por um leitor.

Em todas as buscas que ele faz em A Catedral Verde, pelos campos, pelas florestas, pelas grutas, não há, de facto, uma busca da portugalidade?

Há. Uma portugalidade não no sentido nacionalista pequenino, nacionalista folclórico, à Estado Novo, mas uma portugalidade profunda. Uma portugalidade, portanto, aberta.

No sentido da esperança, do futuro possível para Portugal, enquanto Nação, enquanto Pátria?

Enquanto Nação, identidade, sim. Creio que isso fica claro. Embora haja só uma esperança e não uma certeza. É essa, também, a minha posição pessoal. Mas há elementos que nos permitem ter ainda essa esperança.

Amor absoluto é inusitado em época descartável

«Gosto da história de “Tristão e Isolda”, de um velho romance medieval, e de Wagner. É uma das minhas óperas preferidas»

Porquê a abordagem do tema «Tristão e Isolda.» neste romance feito no ano 2000?

Precisamente por ser, de facto, uma coisa tão inusitada, tão completamente estranha nesta nossa época. O amor absoluto, total, obsessivo, exclusivo, numa época eminentemente descartável.

O ser amado também já é descartável?

Sim, hoje em dia descarta-se o ser amado com uma certa facilidade. Por isso mesmo Tristão e Isolda é uma ideia exótica.

Wagner é aqui o desafio?

Claro. Por outro lado, existe também uma questão de gosto pessoal: eu gosto muito da história, de um velho romance medieval, e gosto de Wagner. Uma das minhas óperas preferidas de Wagner é Tristão e Isolda, que considero uma obra-prima do verdadeiro erotismo em música.

Que considera ser o verdadeiro erotismo?

Digo verdadeiro erotismo, porque hoje em dia se confunde cada vez mais erotismo com pornografia. Quando se vê explicitamente o acto sexual com todos os pormenores chama-se erótico, mas na realidade é pornográfico.

O erotismo é o ser nivelado?

Erotismo é a sugestão, é o meio desvendado. Muito mais a ideia de, do que a acção. E toda a estrutura da música de Tristão e Isolda é, quase diria, de um orgasmo retardado, que só acontece no final, com a morte de Isolda. É uma peça musical magnífica.

Considera que o filtro do amor do século XXI pode ser o Viagra?

Tanto não acho que coloquei a minha personagem a recusar essa hipótese. Por reacção à teologia do Viagra, ele escolhe exactamente o oposto, considerando que o filtro do amor seria, neste caso, a impotência de um dos parceiros do par amoroso. Tristão.

Há mais referências culturais neste seu último romance do que em qualquer dos anteriores…

Aconteceu. Não houve, da minha parte, uma vontade deliberada nesse sentido.

O protagonista é um intelectual. Será por esse motivo?

Tem toda a razão de ser, mas na realidade fi-lo inconscientemente.

Ele é, paralelamente, um autocrítico?

Essa é uma das semelhanças que tem comigo. Eu disfarço bem, mas sou muito autocrítico.

Não haverá uma contradição nessa atitude dele e na sua permanente busca da felicidade?

Busca de felicidade ou, pelo menos, de paz interior. Não, não me parece que haja qualquer contradição.

Mas, sempre que alcança essa paz de que fala…

Alguma coisa lhe foge.

Alguma coisa critica e pensa estar mal, estar errada.

É um facto. Para já, creio que isso é muito humano, depois, mais uma vez, não foi minimamente premeditado.

Ele é uma pessoa que se deprime?

Não sei se se deprime. Sei que, a todo o custo, quer evitar a autoglorificação, que ainda por cima considera ridícula, entre outras coisas. Eventualmente pode cair num excesso de autocrítica. Mas eu prefiro um excesso de autocrítica a um excesso de autoconvencimento.

Diário de Notícias, 31 de Março de 2001

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